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sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Tia Miséria

Havia no princípio do mundo uma velhinha muito pobre e muito infeliz: era conhecida pela Tia Miséria. Só possuía uma casinha arruinada e uma pereira defronte da porta. Tudo sofria com paciência e resignação, mas só uma coisa não desculpava, nem perdoava: que os garotos subissem à pereira e lhe comessem as pêras. Era capaz de dá-las todas sem provar uma, mas indignava-se contra os que lhas roubavam.

Uma noite bateu-lhe à porta um pobrezinho; correu a abri-la e deu ao pobrezinho a migalha de pão que reservava para si. No dia seguinte despediu-se o pobre e disse-lhe que pedisse o que quisesse.

Só peço que as pessoas que subirem à minha pereira não possam descer sem o meu consentimento – respondeu a velhinha.

- Assim será – respondeu o mendigo.

No outro dia, quando saiu à rua, encontrou três garotos em cima da pereira.

- Ó Tia Miséria, perdoe-nos pelo amor de Deus! Tire-nos daqui, não podemos descer.

- Ah! Pois vocês diziam que não eram os ladrões das minhas pêras! Por esta vez, vá; Se lá voltarem hão-de ficar aí muitos anos.

E os garotos desceram e não mais voltaram à pereira.

Um dia de manhã, entrou-lhe em casa uma mulher de horrendo aspecto, vestida de negro e armada de foice, com as asas negras nos ombros e nos pés.

- O que me quer? - Perguntou a Miséria a tremer.

- Sou a Morte: venho buscar-te.

- Já? Pois nem ao menos me dá um ano de espera?

- Não pode ser - respondeu a Morte.

- Faça-me ao menos um favor: suba à minha pereira e colha-me a última pêra que me resta. Quero comê-la, visto que é a última.

A Morte subiu à pereira, colheu a pêra, mas não pôde descer. Pôs-se a chamar a velhinha. Esta respondeu: “Tem paciência, aí ficarás para todos os séculos. És má, tens feito muitas desgraças, roubando muitos pais aos seus filhos pequeninos...”

E a Morte ficou em cima da pereira.

Passados dias tinha a velhinha em frente da sua porta um exército, composto de padres que se queixavam de que não havia enterros, de escrivães que se lastimavam de não ter inventários, de delegados que se doíam de não fazer promoções orfanológicas, de juízes que se queixavam de não receber emolumentos das reuniões dos conselhos de família, das presidências nos actos de licitações e das sentenças em demarcações, enfim, de todos aqueles indivíduos que vivem da morte do próximo. Todos pediam à velhinha que autorizasse a Morte a descer da pereira, mas a velhinha respondia: “ Não quero, não quero e não quero”.

Falou então a Morte do alto da pereira e fez com a velhinha um contrato: poupar-lhe a vida enquanto o mundo fosse mundo. A velhinha consentiu e a Morte desceu. Por isso enquanto o mundo for mundo a Miséria existirá sobre a Terra.

Conto tradicional português, recolhido por Ataíde Oliveira

terça-feira, 5 de julho de 2011

rude




- Sei dum ninho!!!
Firmino ainda hoje se lembrará de serem estas as palavras com que o Chico ousou quebrar aquele silêncio constrangedor que se prolongara para lá do confortável.
Já era costume que assim fosse mas, que diabo, ainda nenhum se habituara àquilo. Desde que naquele sábado de S. João se encavalitaram ambos no parapeito da janela da casa de banho do "Ti Cosme". Sôfregos se seguravam de cabeças encostadas e braços trémulos como quem lutava pela própria vida, e ali, durante escassos segundos, apreciaram a pálida nudez da Carminda no banho, cândida, trintona, solteira e desinteressada, tímida e inconscientemente se oferecendo à vista de dois marmelos imberbes que, não mais de meia dúzia de minutos passados, se masturbavam ambos e de forma voraz por debaixo do valado do passal e descobriam pela primeira vez as maravilhas e o prazer da consumação. Desde esse dia, cuja noite, é certo, lembravam melhor, era assim que acabavam as tardes de domingo que, na forma simplória de campónios que eram ou, para sermos mais honrosos, pela camaradagem que os unia, teimavam em passar juntos e invariavelmente terminavam ali... Deitados sob a vasta ramada de aromáticos cachos de americano que cobria o Paúl do "ti Antone" se deixavam envolver pela frescura do rio que se habituaram a ter como certo e terminavam ejaculando sobre beldroegas e línguas de ovelha que alguém, no dia seguinte, viria por certo cegar, e soltavam urros ou grunhidos de que ambos se envergonhavam por saberem que a vontade era de gritar o nome de Carminda, essa que, sem o saber, tinha dado a cada um deles, pela primeira e única vez em suas vidas, seu corpo de fêmea à apreciação, essa mesmo, no entanto, moça feia, encalhada, por quem ambos mas cada um por si, envergonhadamente se sentiam apaixonados. E era por um dos dois motivos, a ideia de Carminda e a sessão de masturbação conjunta, senão os dois em simultâneo, que cada um dos franganotes se continuava a sentir deveras constrangido e com um nó na garganta dificílimo de desatar a cada domingo que passava, na hora em que o sol já não vai alto... E foi com essa sensação de "deja-vu", se é que se pode aplicar o termo, que Firmino aproveitou para ajudar à escapada do silêncio encetada pelo Chico perguntando:
- E tem melrinhos, esse ninho? - mas nem se apercebeu da resposta do amigo e companheiro:
- Ah?! Que ninho?!!


José Eduardo


domingo, 13 de março de 2011

Desencontro



Tempos houve em que ele não gostava dela… A figura franzina, de pernas espetadas em sapatilhas metodicamente escolhidas em função única do conforto que proporcionam. A cara sardenta, o cabelo cujas pontas finalizavam em pequenos totós porque um corte curto era sempre uma escolha mais prática. Toda a sua figura representava a personificação do estereótipo de criança insípida. Apesar disso era-lhe, a ele, impossível não reparar no brilho que invadia o olhar dela a cada vez que se lhe dirigia.


A ele, que sempre se achou um pacóvio ignorante camuflado numa permanente interpretação de jovem culto e estudioso, arrepiava-o a possibilidade de representar o alvo de tamanha admiração para alguém e, por isso, sentia o coração invadir a garganta e deixar todo o seu interior vazio e frio a cada vez que se cruzavam e os inocentes olhos daquela pirralha se enchiam de sorrisos tímidos e admiração a si destinados.
Mas não… tal não podia ser… Como haveria ele de encarar os demais mancebos a quem acompanhava nos momentos de estroinice se soubessem de tal facto? Como poderia ele continuar a envolver-se no meio esteticamente viril em acto e pensamento? Seria de uma humilhação insuportável… A possibilidade de se ver privado de convivências nas quais sabia de antemão que o seu carácter não se reflectia mas achava que teria de ser assim… Que o seu coração pleno de amor e cavalheirismo para com as meninas estaria enganado e a realidade seria obviamente à moda daquela gente. De tal forma se esforçava por se convencer daquilo que sabia ser mentira que até conseguiu e, assim pensando, nunca poderia retribuir aquela simpatia, aquele fascínio, aquele Amor!!! Tal não poderia continuar… era impossível entusiasmar-se com a adoração que lhe dedicava a menina franzina de pernas espetadas em sapatilhas confortáveis e cujo conjunto sardas / totós lembravam personagens de banda desenhada…

Foi já bem tarde que descobriu o amor, quer dizer… foi já bem tarde que descobriu a lascívia e a devassidão! Ao cabo de tantos anos negando os ímpetos cavalheirescos que lhe invadiam a alma, acabou por descobrir a beleza dos prazeres que os mesmos lhe proporcionavam. Aprendeu que a simpatia e um sorriso comprometido lhe abriam as portas de um mundo cheio de  deleites, gozos e delícias indolentes que o transportavam aos campos do transcendente… deliciosamente transcendente…
Mas ó diabo! Como era possível que tudo isto contribuísse para o avivar de memórias?
A cada vez que raciocinava acerca disso, acabava por lembrar a tamanha negação a que a havia sujeitado… a ela, menina franzina de pernas espetadas em sapatilhas confortáveis e sardas e totós que lembravam a banda desenhada… a ela… que agora descobria ter sido o seu único verdadeiro Amor!

Os anos passaram… e a ausência dela nunca o incomodou tanto quanto agora o seu regresso.
O olhar dele perde-se agora por umas longas pernas nada espetadas que, nas suas calças skinny de dupla lã, terminam em moderníssimas (não menos confortáveis) e extremamente femininas sabrinas que passaram a envolver seus pés agora propositadamente delicados.
O pensamento perde-se na finíssima cintura de uma blusa branca com motivos de extremo bom gosto e que apresenta um irresistível decote nada generoso mas pleno de sensualidade e determinação. As sardas não se ficaram pela face e, para ele, isso tornava-a ainda mais presente e complementava aquele novo estilo e personalidade, aquele novo ar… Um ar de mulher confiante, sabida, estudada… Tudo o que ele outrora julgava ter sido.
O tom da sua pele havia escurecido e isso contribuía para acentuar o contraste com o branco do olhos que, pasme-se, continuavam a brilhar… mas já não para ele…

É por isso que sofre agora… Preferia que o ignorasse, mas não, continua a sorrir-lhe, só que já não por admiração. Continua a sentar-se na mesma mesa de café que ele, agora não porque o deseje, apenas porque é simpática e se apercebe que ele é, agora, um desgraçado emocional nada empreendedor…
Dói-lhe ainda mais pela empenhada simplicidade dela… Dói-lhe porque se senta ao pé de si, acende de forma burguesa um cigarro e enceta uma conversa que, dada a forma e conteúdo interessantes, o deveria fascinar mas…

Os olhos dela já não brilham para si!


mini conto por: José Eduardo


Fotografia: Créditos incluídos na foto