Na aldeia de S. Julião era assim que se vivia. Um dia de cada vez.
Em terra de rural quotidiano, a vivência humana raramente passa disso, produzir para comer e trabalhar para vestir. Cada família parece até ser propositadamente composta por arquitetada exatidão de género e número em função de um destino que jamais precisará ser traçado. Na ideia de cada qual, a fatalidade é fundada à nascença e nem lembra a ninguém encetar qualquer dissertação moral ou psicológica acerca do assunto. Aliás, o esoterismo que esta gente domina resume-se entre as rezas na novena de S. Sebastião e esporádicas consultas à bruxa de Vilar para males que não tenham coragem de apresentar à divindade.
A família de Abel moleiro não fugia à regra, distinguia-se apenas o método. Abel, homem de mãos rudes e grosso trato, logrou conseguir, não se sabe se por acordos de bebedeira ou pelo temor que a sua fisionomia incutia no entendimento alheio, o consentimento do velho Tone da albarda, antes deste falecer, para desposar a sua filha, a belíssima Amélia que, por tamanha graça, o povo chamava de Melinha. Em tempos de outrora, irreverência feminina era fenómeno escasso e de Melinha, fosse por gosto ou temor, jamais alguém ouviria lamento ou revolta. Se, numa fase inicial, porque ainda vivia o velho, o acanhamento de Melinha pudesse ser entendido como respeito ao enfermo – três meses de cama só a água acabariam por lhe sentenciar a morte – a verdade é que não houve quem lhe apreciasse diferença de atitude após a morte do pai.
Explicado o vil processo de ajuntamento, fácil será a perceção que da união entre formosíssima menina e libidinoso quarentão depressa resultaria descendência. Assim, Melinha achar-se-ía grávida aos 14 anos e, sem conselho de mãe nem orientação de médico, toda a aldeia classificou de inédito – por bem mais rude vocabulário – o nascimento daquela criança, que noutra era gerada. O que já ninguém estranhou foi que apenas esta se tenha aguentado na convivência dos vivos e, fatalidade, a vida não permitiu que Melinha atingisse a idade que lhe permitia perder o pueril e carinhoso chamativo.
Assim nasceu condenada a pequena Aida do Moinho. Órfã de mãe. A desejar sê-lo também de pai, o Abel moleiro, patife inábil e de modos rudes, herdou do sogro o título mas não a ocupação. Nem mesmo a albarda ao fim do nome, já que tal representava sinal de ânimo físico a que Abel não estava habituado. Porém, à morte da jovem esposa, Abel viu-se obrigado a assumir o funcionamento da azenha da várzea, olhando sempre para o pequeno rebento e ansiando que Aida crescesse rapidamente de modo a que, em pouco tempo, lhe proporcionasse novamente o usufruto da vida de roto burguês. Fácil será perceber que, não gozando de grande simpatia no povo de São Julião e, em acumulação, começarem a ser raras as vezes que destravava o engenho ou tornava a água no açude, lucrou o moinho de vento lá no cimo do monte de Vilar, que passou a ser destino dos sacos de Cereal da aldeia. Nos anos que se seguiram, com o despontar de moça de Aida e o contínuo abandono do moinho, passaria também esta a ser uma família igual às outras, em número e resultado, diferente no método. Era Aida quem, desde criança, assumia obrigações de produzir para manter – que é como quem diz, comer – tratando da lida de casa e do quintal. Abel, esse, adquirira a alcunha de moleiro e de pouco precisava para a manter, remetendo-se a escassas investidas da mó, suficientes para garantir uns copos na taberna do adro, juntando a outros que lhe pagavam para que o vissem ébrio. Percebemos então que, no que toca a trabalhar para vestir, pouco se via. Benditos parcos costumes desta humilde gente da aldeia que de pouca quantidade de trapos se alimentam.
Por esta altura estará o leitor a desafogar do pensamento o desabafo de consideração acerca da triste vida desta gente. Sê-lo-ía, por certo… Se alguma vez de alegrias houvesse tido conhecimento o humilde povo campesino daquele tempo. Pouco chega a quem nada tem, e era de facto assim naquele tempo, a felicidade morava no aparecimento de singelas coisas ou acontecimentos.
João era um rapaz crescido e, por toda a sua vivência, havia já experimentado gostar de muitas raparigas. Porém, desde há uns tempos que achava diferente o sentimento que dedicava àquela pequena que, ainda há pouco, deixara de ser criança.
Não havia dia que passasse sem que João se convencesse a si mesmo de que aquele não era um gostar qualquer, era especial… Era um gostar que lhe apertava a garganta a cada vez que a via no quintal ao passar para as várzeas… Era um gostar que fazia com que sentisse ciúme de todos aqueles marmanjos que rondavam a azenha da várzea em adulação aos atributos físicos da pequena… Era um gostar que o levava a adorar a beleza angelical inerente à idade da pequena e não tanto a opulência do seu peito… Era um gostar que o fazia ter mais gosto no cultivo das várzeas do que das Searas, esquisito num agricultor exemplar…
Era um gostar… um gostar especial que João tinha a certeza ser o único homem, no mundo, a sentir… Era um gostar que doía, e doía cada vez mais por pensar que a garota nem o olhava, ainda que, a ada vez que passava, se empenhasse num cumprimento de voz trémula a que ela respondia seca e aparentemente sem interesse.
João era filho único e os pais, lavradores desenrascados, sonhavam grande futuro para o rapaz. Talvez por isso o tenham mandado para o Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo, em Braga, de influência Jesuíta que lhe viria a proporcionar uma riqueza cultural invejável mas que João, incompreensivelmente, apenas revelava nas noites de embriaguez coletiva da taberna do adro. Porém, para grande pesar de seus pais, João fora apanhado no flagrante dado a uma investida organizada pela maior parte dos seminaristas a uma casa boémia em Dume, execrável maldição para a terra de Martinho da Panóia, esse santo bispo vindo da Hungria para doutrinar o povo minhoto, que a Igreja decretou santo e cujo epitáfio sepulcral autorredigido costumava ser perversamente adulterado em cânticos de bebedeira pelos seminaristas que acorriam à casa boémia de Dume. Muitos contaram também, ainda que o autor nunca tal tenha visto e como tal não possa garantir, que havia sido desenvolvida pelos alunos do seminário maior uma versão de “Pro Repellenda Iactantia”, essa obra primeira do santo da Panóia que defendia a supressão da bazófia fundada por leis de moral, versão essa que, adquirindo honras de encadernação à socapa, gozava honras de catecismo junto dos alunos do seminário menor, o da Nossa Senhora da Conceição.
Assim, João, que estes caminhos e os outros conhecia de cor, viria a ser apanhado na hora da rusga encomendada, não a beber o vinho tinto em taças transbordantes como todos os outros, nem a cantarolar ofensas à cobarde fuga dos bispos bracarenses para Lugo durante a invasão muçulmana, em versos de rima duvidosa que alguns dominavam. Como sempre, era a petulante Joana que o chamava à casa de Dume, que tinha o descaramento de usar um majestoso crucifixo sobre a oponência do peito generosamente descoberto. Nessa noite de suposta ida ao cinema, João seria apanhado de surpresa sobre o suculento corpo da Joana enquanto esta se empenhava em veemências de queixume acerca da generosidade do rapaz no que a tamanho se refere. Este íntimo pormenor de ocasião havia de passar entre os guardas, ganhando legitimamente o epíteto de boca de caserna até, por particularidades de relacionamentos familiares ou camaradagem entre os membros de ambos os lados, chegar aos corredores do dormitório do seminário Conciliar e entranhar-se em João, complementando-lhe para toda a vida o nome próprio com que havia sido batizado em S. Julião.
Deixando-nos de bisbilhotices – cuja curiosidade do leitor aguça o vício do autor – e passemos à narração da sucessão de acontecimentos a partir daqui. Curiosamente – ou talvez não, pelo cedo que era – João seria o único a ser apanhado com a boca na botija, estranha metáfora que, nem eufémica ou disfémica, levará o leitor a sentenciar a ligeireza do autor por óbvia constatação de que talvez todos, à exceção de João, estariam, àquela hora, a usar a boca, veículo único conhecido para receber o tal néctar dos deuses ou sangue do diabo, conforme o variar da perspetiva, e o coitado do rapaz, por lhe ter faltado a paciência ou ter-se rendido à líbido juvenil, estaria já empenhando outra ferramenta que não a cavidade bucal.
Ponhamos a perversidade de parte para explicar que, perante a particularidade da contagem e atribuição de culpa ou pecado, fácil terá sido por se tratar de um único rapaz, para a reitoria do seminário, aplicar exemplar castigo e aviso aos demais. Chamados os pais a Braga, sequiosos de pranto estes bispos, não foram sequer capazes de esconder ao humilde casal o verdadeiro motivo do castigo. Valeu ao rapaz ter um pai compreensivo e pouco amante desta gente que teima em vestir saias e dar a mão a beijar. O Velhote apenas queria ver o rapaz formado, não o queria ver padre. Não deixou de passar ao filho o solene raspanete mas acordou com a esposa que o assunto morreria ali e jamais a aldeia haveria de descobrir que não foi a consciência do rapaz a ditar que não serviria condignamente os preceitos da santidade e inerente desistência do estudo. Já não se sabe é como a “nobiliária” alcunha chegou chegou à terra, a verdade é que João grande seria para sempre, em S.Julião como em Braga, ainda que na primeira se desconhecesse o real motivo e ignorantemente se presumisse inerente à estatura do moço.
E foi assim que João Grande passou ao lado de uma vida diferente. Espiritual e espirituosamente rico, o rapaz agora homem optou por se dedicar a alegremente sorver a pacatez da aldeia e a desenvolver a cultura das terras dos pais com sagacidade mas sem inovação.
E assim, pacato era também o amor que dedicava à pequena de seios fartos que crescia por entre os paúis junto ao rio. Não raras vezes a viu refrescar-se nas frias águas que rodeavam a azenha, isenta de pudores por se julgar só, e dava por si a recriminar a imaginação que lhe sugeria parecenças com Joana, a moça libertina da casa de Dume. Não, Aida era pura, era jovem, seria certamente virgem e carinhosa por inerência da idade. Aida era bela, mas não era sua.
nos dias de ontem era tudo cinzento e a palavra estava caída como uma folha sem vida num dia sem vento nos dias de ontem a coragem não vinha e a boca fechava e o olhar retornava em direção à bainha nos dias de ontem não morava a esperança ninguém decidia e jamais ousaria iniciar a dança até que se fez hoje e um grupo seleto tocou a reunir e ousou decidir debaixo de um teto e nos dias de hoje porque alguém assim quis o povo à rua saiu levantou a cabeça e sorriu e chegou-se a mostarda ao nariz nos dias de hoje liberto da opressão o povo dançou celebrou, gritou o povo passou a dizer não até que ainda mais hoje porque o povo ficou cansado o dono cá disto tudo eterno senhor barrigudo apoderou-se de novo do estado e agora que é ainda mais hoje a sociedade, em abdução já não gosta de estar alerta senão do vizinho à espreita o povo... deixou de dizer NÃO! José Eduardo
(...) Nos dias santificados, dormia-se até quase às dez horas da manhã; depois a gente séria e casada vestia o seu melhor fato e ia à missa, censurando aos novos a sua indiferença em matéria religiosa. Ao regressarem da igreja, comiam tortas de massa, e deitavam-se de novo até à tarde.
A fadiga acumulada durante longos anos tirava o apetite; para poderem comer, era preciso beberem muito, excitarem o estômago preguiçoso com a ardência do álcool.
Pela tarde, passeavam indolentemente pelas ruas; os que possuíam capas de borracha punham-nas, ainda que o tempo estivesse seco; os que tinham um guarda-chuva, com ele saíam, ainda que fizesse sol. Não é dado a toda a gente possuir um impermeável ou um guarda-chuva, mas cada qual ambiciona superiorizar-se ao seu vizinho, seja de que maneira for.
Quando se formavam grupos, conversava-se acerca da fábrica, das máquinas, dizia-se mal dos contra-mestres. As palavras e os pensamentos não se referiam a mais do que a coisas relacionadas ao trabalho. A inteligência desastrada e impotente lançava apenas umas centelhas isoladas, um ténue clarão na monotonia dos dias. Ao voltarem para casa os maridos buscavam questões para discutirem com as mulheres, batendo-lhes muitas vezes, sem pouparem as suas forças. Os novos ficavam na taverna ou organizavam pequenas reuniões em casa dum ou doutro, tocavam harmónio, cantavam canções estúpidas e ignóbeis, dançavam, contavam histórias obscenas e bebiam em excesso. Extenuados pelo trabalho, estes homens embriagavam-se facilmente, e em cada peito desenvolvia-se uma excitação doentia, incompreensível que precisava de encontrar saída. Então, pelo mais fútil pretexto, atiravam-se uns aos outros como animais selvagens. Havia contendas sangrentas. (...)
um dia hei-de ser alguém... hei-de ser o homem que desejas e levar-te-ei ao altar. Um dia... hei-de caminhar preeminente em meio do povo e orgulhar-te-ás daquilo que o povo vê... quando me vê!
querias crescer agir como gente grande reger o teu mundo e com um não rotundo rejeitar todo o ser que tua dita desmande
queres ser alguém que se mostre imponente e do alto de um trono sem pai nem dono jamais dizer amén a um alguém indecente
porventura vais ser tudo isso que anseias mas, nesse mesmo dia verás que tudo o que havia o que de mau julgavas ter ainda que o descreias era mesmo o sustento da tua imensa alegria...
por isso esquece não invejes quem cresce fica aqui connosco neste momento tosco de saúde e alegria de convivência sadia sorriso cúmplice partilhado com o pai respeitinho e amor para com a mãe e tudo tudo girará á tua volta no fundamento de uma gargalhada solta assim no conceito próprio que criamos do tanto que nos amamos e no sorriso que não prendemos quando, no pensamento amanhã nos vemos!
Agora que me largaste a mão
e deste a liberdade de escolher
sei que nada conheço
além de ti
de mim
se diferentes somos de um só
porque em ti me confundo
e na tua vida eu moro
e nada mais vejo para além do vale do teu peito
e nada mais me consome de outro jeito
que a ideia de beber em ti
e de como te dás a mim
por pena
por amor
por vício
ardor
não sei
mas sei que dependo de ti
e sem ti
sem te ter encostada a mim
carne com carne
pele com pele
almas fundidas
tudo é gasoso
efémero
ilusório
porque a cobardia me impediu
de dar o passo em frente
de ser mais diligente
e partir em busca do que sempre te pedi
tu sabias que era assim
que não saberia o caminho para mais além
mas não mo dizias assim
não te atrevias a quebrar a ilusão
de que o barco navegava
não ao sabor do teu vento
mas frutos das minhas investidas ao leme
e tu sabias
sabias que não era eu que entrava em ti
na hora em que nos atravessávamos de paixão
eras tu quem me abraçava
de uma forma diferente é certo
mas fazia-lo porque sabias
tu sabias
sabias que me perderia na hora em que te afastasses
e por intuito de lição
por causa da minha irritação
tu largaste o meu corpo
deixaste a minha mão
e disseste-me: vai!
e eu não fui
não sabia para onde ir
e eu não fui porque me custava decidir
e eu não fui
fiquei ali
olhando-te
olhando-me
fitando a triste figura que teimava representar
e deixei-me estar
fiz de conta que não queria
mas eras tu quem sabia
a razão de eu ficar!
Já não te livras da fama do cheiro a musgo e da lama, e do frio que punhas no respirar. Lembra-me bem o encanto e a densidade do manto de neblina que espalhavas no ar. Havia namoros de verão pela frescura do chão e da leveza que emprestaste aos sentidos. Testemunhaste promessas beijos trocados sem pressas e guardaste sussurros julgados perdidos.
Quero sentir de novo, o feno nos pés... Quero viver agora, o que já não és...
Labirintos de alma percorridos sem calma Como viagens... longas... sem fim! Selvagem vegetação aventuras do pé para a mão emoções arrancadas de mim. E se a lembrança chega até hoje é porque a ideia não foge, do bem que soube viver em sitios assim.
Quero sentir de novo, o feno nos pés... Quero viver agora, o que já não és...
Aqueles pinheiros altos os muros verdes, corridos aos saltos e a sanidade do viver natural. Cavernas e grutas inventadas por cabeças brutas, e era ali que assentávamos o arraial.
Por fim, a alegria vivida nos mergulhos que ousámos dar no tanque do campo, de carne despida não só de roupa, mas do preconceito do cumprimento dado sem jeito na hora da despedida.
Espera por mim na nuvem em que me deito, depois do éter tragado a preceito. sinto que o tempo me escapa entre os dedos e ainda não enchi o peito para enfrentar todos os medos
Quero sentir de novo, o feno nos pés... Quero viver hoje, o que já não és...
A pouco e pouco tudo era luz... e no estímulo mais luz se fazia na minha ideia! A coisa corria bem e eu gostava! Arrotava e alguém ria... sentenciava e alguém pontuava a frase com um ponto de exclamação e, mais ainda, alguém exclamava na circunstância da reação! A confiança aumentava. As palmadas nas costas eram constantes e eu já nem as identificava.
Por fim tudo era luz... e na imensidão de clareza havia uma que faltava... a minha! Era a luz dos outros que me cegava e iluminava o meu espaço e me provocava esse autismo que nos prepotentes se aconchega.
No fim lá estava a luz... tudo continuava iluminado mas o foco não era eu! Eram os que me circundavam que tinham ganhado luz própria e a que me inundava mais não era do que a difusa que se lhes sobra.
E eu continuava àquela luz... no meio do caminho... preocupado em agradar sem ver a quem e, de repente, não agradava ninguém!
Fiquei por lá, à luz, perdido no imenso clarão... Um completo ser, riquíssimo na minha forma de ver, mas anónimo, na multidão!
Em vias de incrementar o esforço por voltar à escrita... Na verdade, gostava de terminar este projeto! Fica aqui um cheirinho!!!
(...)
João, filho de lavradores, gostava
de Aida…
João era um rapaz crescido e, por
toda a sua vivência, havia já experimentado gostar de muitas raparigas. Porém,
desde há uns tempos que achava diferente o sentimento que dedicava àquela
pequena que, ainda há pouco, deixara de ser criança.
Não havia dia que passasse sem que
João se convencesse a si mesmo de que aquele não era um gostar qualquer, era
especial… Era um gostar que lhe apertava a garganta a cada vez que a via no
quintal ao passar para as várzeas… Era um gostar que fazia com que sentisse
ciúme de todos aqueles marmanjos que rondavam a azenha da várzea em adulação
aos atributos físicos da pequena… Era um gostar que o levava a adorar a beleza
angelical inerente à idade da pequena e não tanto a opulência do seu peito… Era
um gostar que o fazia ter mais gosto no
cultivo das várzeas do que das Searas, esquisito num agricultor exemplar…
Era um gostar… um gostar especial
que João tinha a certeza ser o único homem, no mundo, a sentir… Era um gostar
que doía, e doía cada vez mais por pensar que a garota nem o olhava, ainda que,
a cada vez que passava, se empenhasse num cumprimento de voz trémula a que ela
respondia seca e aparentemente sem interesse.
João era filho único e os pais,
lavradores desenrascados, sonhavam grande futuro para o rapaz. Talvez por isso
o tenham mandado para o Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo, em Braga,
de influência Jesuíta que lhe viria a proporcionar uma riqueza cultural
invejável mas que João, incompreensivelmente, apenas revelava nas noites de
embriaguês coletiva da taberna do adro. Porém, para grande pesar de seus pais,
João fora apanhado no flagrante dado a uma investida organizada pela maior
parte dos seminaristas a uma casa boémia em Dume, execrável maldição para a
terra de Martinho da Panóia, esse santo bispo vindo da Hungria para doutrinar o
povo minhoto, que a Igreja decretou santo e cujo epitáfio sepulcral
autorredigido costumava ser perversamente adulterado em cânticos de bebedeira
pelos seminaristas que acorriam à casa boémia de dume. Muitos contaram também,
ainda que o autor nunca tal tenha visto e como tal não possa garantir, que havia
sido desenvolvida pelos alunos do seminário maior uma versão de “Pro
Repellenda Iactantia”1, essa obra primeira do santo da
Panóia que defendia a supressão da bazófia fundada por leis de moral, versão
essa que, adquirindo título de encadernação à socapa, gozava honras de
catecismo junto dos alunos do seminário menor, o da Nossa Senhora da Conceição.
Assim, João, que estes caminhos e
os outros conhecia de cor, viria a ser apanhado na hora da rusga encomendada,
não a beber o vinho tinto em taças transbordantes como todos os outros, nem a
cantarolar ofensas à cobarde fuga dos bispos bracarenses para Lugo durante a
invasão muçulmana, em versos de rima duvidosa que alguns dominavam. Como
sempre, era a petulante Joana que o chamava à casa de Dume, que tinha o
descaramento de usar um majestoso crucifixo sobre a oponência do peito
generosamente descoberto. Nessa noite de suposta ida ao cinema, João seria apanhado
de surpresa sobre o suculento corpo da Joana enquanto esta se empenhava em
veemências de queixume acerca da generosidade do rapaz no que a tamanho se
refere. Este íntimo pormenor de ocasião havia de passar entre os guardas,
ganhando legitimamente o epíteto de boca de caserna até, por particularidades
de relacionamentos familiares ou camaradagem entre os membros de ambos os
lados, chegar aos corredores do dormitório do seminário Conciliar e
entranhar-se em João, complementando-lhe para toda a vida o nome próprio com
que havia sido batizado em S. Julião.
Deixemo-nos de bisbilhotices –
que curiosidade do leitor aguça o vício do autor – e passemos à narração da sucessão
de acontecimentos a partir daqui. Curiosamente – ou talvez não, pelo cedo que
era – João sería o único a ser apanhado com a boca na botija, estranha metáfora
que, nem eufémica ou disfémica, levará o leitor a sentenciar a ligeireza do autor por óbvia
constatação de que talvez todos, à exceção de João, estariam, àquela hora, a
usar a boca, veículo único conhecido para receber o tal néctar dos deuses ou
sangue do diabo, conforme o variar da perspectiva, e o coitado do rapaz, por lhe
ter faltado a paciência ou ter-se rendido à líbido juvenil, estaria já
empenhando outra ferramenta que não a cavidade bucal.
Ponhamos a perversidade de parte
para explicar que, perante a particularidade da contagem e atribuição de culpa
ou pecado, fácil terá sido por se tratar de um único rapaz, para a reitoria do
seminário, aplicar exemplar castigo e aviso aos demais. Chamados os pais a
Braga, sequiosos de pranto estes bispos, não foram sequer capazes de esconder
ao humilde casal o verdadeiro motivo do castigo. Valeu ao rapaz ter um pai
compreensivo e pouco amante desta gente que teima em vestir saias e dar a mão a
beijar. O Velhote apenas queria ver o rapaz formado, não o queria ver padre.
Não deixou de passar ao filho o solene raspanete mas acordou com a esposa que o
assunto morreria ali e jamais a aldeia haveria de descobrir que não foi a
consciência do rapaz a ditar que não serviria condignamente os preceitos da
santidade e inerente desistência do estudo. Já não se sabe é como a
“nobiliária” alcunha chegou chegou à terra, a verdade é que João grande seria
para sempre, em S.Julião como em Braga, ainda que na primeira se desconhecesse
o real motivo e ignorantemente se
presumisse inerente à estatura do moço.
E foi assim
que João Grande passou ao lado de uma vida diferente. Espiritual e
espirituosamente rico, o rapaz agora homem optou por se dedicar a alegremente
sorver a pacatez da aldeia e a desenvolver a cultura das terras dos pais com
sagacidade mas sem inovação.
E assim, pacato era também o amor
que dedicava à pequena de seios fartos que crescia por entre os paúis junto ao
rio. Não raras vezes a viu refrescar-se nas frias águas que rodeavam a azenha,
isenta de pudores por se julgar só, e dava por si a recriminar a imaginação que
lhe sugeria parecenças com Joana, a moça libertina da casa de Dume. Não, Aida
era pura, era jovem, seria certamente virgem e carinhosa por inerência da
idade. Aida era linda, mas não era sua.
(...) Era muito bonita esta Aida do
Moinho e não era portanto de admirar o constante correrio da vasta variedade de
marmanjos em idade de líbido crescente pelo caminho das várzeas. O facto de
terminar em pleno moinho do velho Abel e, por isso, não permitir justificações
de passagem aleatória e desinteressada, jamais viria a inibir alguém. Além do
mais, a natural beleza do local assente em elevadíssima riqueza bucólica sempre
foi mais que suficiente para levar famílias inteiras munidas da cesta do merendelo ou tocadores de
concertina nos domingos à tarde. Ali se juntavam cantando, dançando,
namoriscando, refrescando os pés no leito do rio que corria molengão ou
refastelando-se à sombra depois de mamado o farnel, roendo uma meticulosamente
escolhida palha de feno no espaço confinado ao alcance de um braço. Mas isso
era aos domingos… Por aquela altura, a presença de Aida era o motivo da
passagem, e era fenómeno diário.
Obviamente, Aida sentia-se
lisonjeada por tamanha atenção. Nunca foi de alimentar ideias em cabeça alheia
por iniciativa própria, era ainda muito nova, mas sabia muito bem ao que vinham
todos aqueles rapazes, era por sí, e sabia também que a sua simples presença na
romaria de São Sebastião era o suficiente para que uns quantos se informassem
junto de outros tantos acerca da identidade daquela jovem menina, formosa, de
peito farto.
Disso gostava mas a todos ignorava
a pequena Aida. Não os enxotando (gostava de se sentir desejada, ela que era
pobre, ao contrário de outras que fidalgas haviam nascido), foi sempre
desenvolvendo e aplicando a arte de inibir investidas mais ousadas ou
ambiciosas, e tão habilmente o fazia que nunca ninguém ouviu falar da revolta
de algum. A pequena sabia cativar amizades e os marmanjos, apercebendo-se da
fatal situação de incapacidade para conquistar corpo ou alma, ficavam-se pela
amizade empenhando-se, todos sem exceção, na explicação de que, desde o início,
jamais lhes havia passado pela cabeça a intenção de posse ou paixão. A verdade é
que começavam por rarear as visitas e se dedicavam, a partir dali, à procura de
novo alvo dos seus impetuosos disparos de líbido e romance, fosse em São Julião
ou nas freguesias vizinhas.
Havia porém – tinha de haver – um moço que lograva convencer os sentimentos
de Aida. Tal como num romance deve ser, era ele o que menos se expressava. O
João Grande, rapaz que também por alí passava mas que jamais havia investido
olhares ou palavras de apreço sobre a bela rapariga. João Grande era filhos de
lavradores e donos da maior parte dos terrenos na várzea. Todos os dias por alí
passava o Jovem sempre empunhando qualquer ferramenta de trabalho. Da simples
enxada à complexa parelha dos bois galegos que puxavam o carro, nunca João por
ali passava sem que fosse a trabalho mas sempre Aida saía ao quintal para o ver
passar. O simples e respeitoso cumprimento que o rapaz lhe endereçava chegava
para alegrar o dia da pequena. Era ele o seu Amor!
No YouTube há um comentário que merece honras de reprodução aqui:
"Um grandioso hino para todos os que recusam a mediocridade de não terem personalidade própria. Malucos são os alienados que se limitam a nadar na corrente como cagalhões num esgoto."
Diz-me que solidão é essa
Que te põe a falar sozinho Diz-me que conversa Estás a ter contigo
Diz-me que desprezo é esse Que não olhas para quem quer que seja Ou pensas que não existes Ninguém que te veja Que viagem é essa Que te diriges em todos os sentidos Andas em busca dos sonhos perdidos
Uhhhhh... Uhhhhh...
Lá vai o maluco Lá vai o demente Lá vai ele a passar Assim te chama toda essa gente Mas tu estás sempre ausente e não te conseguem alcançar
Diz-me que loucura é essa Que te veste de fantasia Diz-me que te liberta Que vida fazias
Diz-me que distância é essa Que levas no teu olhar Que ânsia e que pressa Tu queres alcançar Que viagem é essa Que te diriges em todos os sentidos Andas em busca dos sonhos perdidos Uhhhhh... Uhhhhh...
Lá vai o maluco Lá vai o demente Lá vai ele a passar Assim te chama toda essa gente
Mas tu estás sempre ausente e não te conseguem alcançar
Mas eu estou sempre ausente e não conseguem alcançar Não conseguem alcançar
Firmino ainda hoje se lembrará de serem estas as palavras com que o Chico ousou quebrar aquele silêncio constrangedor que se prolongara para lá do confortável.
Já era costume que assim fosse mas, que diabo, ainda nenhum se habituara àquilo. Desde que naquele sábado de S. João se encavalitaram ambos no parapeito da janela da casa de banho do "Ti Cosme". Sôfregos se seguravam de cabeças encostadas e braços trémulos como quem lutava pela própria vida, e ali, durante escassos segundos, apreciaram a pálida nudez da Carminda no banho, cândida, trintona, solteira e desinteressada, tímida e inconscientemente se oferecendo à vista de dois marmelos imberbes que, não mais de meia dúzia de minutos passados, se masturbavam ambos e de forma voraz por debaixo do valado do passal e descobriam pela primeira vez as maravilhas e o prazer da consumação. Desde esse dia, cuja noite, é certo, lembravam melhor, era assim que acabavam as tardes de domingo que, na forma simplória de campónios que eram ou, para sermos mais honrosos, pela camaradagem que os unia, teimavam em passar juntos e invariavelmente terminavam ali... Deitados sob a vasta ramada de aromáticos cachos de americano que cobria o Paúl do "ti Antone" se deixavam envolver pela frescura do rio que se habituaram a ter como certo e terminavam ejaculando sobre beldroegas e línguas de ovelha que alguém, no dia seguinte, viria por certo cegar, e soltavam urros ou grunhidos de que ambos se envergonhavam por saberem que a vontade era de gritar o nome de Carminda, essa que, sem o saber, tinha dado a cada um deles, pela primeira e única vez em suas vidas, seu corpo de fêmea à apreciação, essa mesmo, no entanto, moça feia, encalhada, por quem ambos mas cada um por si, envergonhadamente se sentiam apaixonados. E era por um dos dois motivos, a ideia de Carminda e a sessão de masturbação conjunta, senão os dois em simultâneo, que cada um dos franganotes se continuava a sentir deveras constrangido e com um nó na garganta dificílimo de desatar a cada domingo que passava, na hora em que o sol já não vai alto... E foi com essa sensação de "deja-vu", se é que se pode aplicar o termo, que Firmino aproveitou para ajudar à escapada do silêncio encetada pelo Chico perguntando:
- E tem melrinhos, esse ninho? - mas nem se apercebeu da resposta do amigo e companheiro:
Tenho saudade… Saudade do tempo do pé descalço Tenho saudade Do cheiro da chuva no alcatrão Tenho saudade Da gente que aprendera a lidar com o percalço Dos que lidavam bem com a palavra “não”
Tenho saudade… Saudade do feno e da terra cavada Tenho saudade Do verão quente e dos sonhos impossíveis de alcançar Tenho saudade Da gente que sorria debruçada na enxada Do naco de broa, na algibeira, a sossegar
Tenho saudade… Saudade de amar e ser amado Tenho saudade Dos sorrisos fáceis e descomprometidos Tenho saudade Da gente simples que guiava o arado Das crenças e dos contos outrora lidos
...e a cada momento em que me ocorre a ideia de partir, basta que apareças e tudo cai por terra. Chega que te mostres, que sorrias, e logo tudo esqueço porque o conforto da tua tímida presença supera largamente a vontade de partir. Inconscientemente, afagas-me alma e coração. O leve toque dos teus dedos em meus cabelos sossega-me o ímpeto de fuga da forma que, sem o saber, só tu sabes!
E assim, involuntariamente activa, arremessas-me contra um terrivel estado de bem-estar que eu sei que será, por certo, a minha perdição mas...