terça-feira, 9 de agosto de 2022

nem que seja só mais um bocado


lá no risco
vermelho
contínuo
da longa caminhada do tempo,
tem traço fino
traço grosso
tem vida célere
e tempo lento.
o que vivi já não lembro,
mau
bom,
de tudo vi
e aquilo que carreguei no ombro
só eu é que o senti...
ao lembrar o passado, confesso
mais a dor me lembra que o sucesso
mas apresento-me assim
de rosto levantado
pelas mãos do diabo, lavado
porque não me apetece o fim
e por mim
nem que seja só mais um bocado
quero é ficar aqui!


segunda-feira, 21 de março de 2022

domingo, 25 de abril de 2021

fascismo nunca mais

a cada novo instante
deste belo amanhecer
a cada gota refrescante
da neblina de um dia novo
sente-se a embriaguez de um povo
e a coragem toda a crescer
qual erecçao juvenil
ou pensamento pueril
é o sangue a ferver
de sonhos e ideias mil

ergam-se os punhos ao vento
agora que ficou para trás
o cheiro do velho tempo
a enxofre e aguarrás

e em meio da bebedeira
arranje-se pois maneira
de preservar a memória
e que o tempo da miséria
o mantenha a gente séria
bem fundo nos baús da escória

mantenha-se então a coragem
de manter viva a imagem
daquela miséria que existia
ainda que seja dura lembrança
de quando nem sequer era criança
a nossa democracia

peguemos então pelos cornos
e nunca com panos mornos
o baboso mostrengo da reação
esse que se aventura agora
achando que chegou a hora
de reinar o grande cabrão

lembremos pois toda a gente
que aquilo que queremos à frente
não virá pela mão dos jograis
espezinhemos o doido varrido
e gritemos em tom decidido
FASCISMO NUNCA MAIS!!!

José Eduardo



sexta-feira, 2 de abril de 2021

lá vem o charlatão

Lá vem o charlatão
de sorriso proeminente
é de todos o maior cabrão
mas ninguém lho diz pela frente

De tudo ele já viveu
no seu mundo pequeninho
e o que não viveu, inventa
porque a verdade fraudulenta
só ele sabe que a leu
num jornaleco mesquinho

tem ódio ao seu semelhante
a miséria é o que lhe deseja
mas ao rico, seu dono
ao seu poderoso patrono
a bajulação é constante
pois aos seus restos almeja

todos se riem de si
pelas costas, é certo
ninguém ousa ser sincero
com medo do senhor austero
que sabe de tudo por ali
como se estivesse por perto
é o charlatão que lhe conta
esse porco animal de monta
sedento de vingança
de ver sofrer quem se cansa
na luta, na afronta

miserável ser abjeto
que por falta de confrontação
se acha dístico de soneto
pois ninguém lhe diz de perto
que o seu estilo gingão
e o sorriso indiscreto
são desenho direto
dos traços de um cabrão!

pululantemente ridículo
vagueia sorridente
no papel de parvo discípulo
por entre toda aquela gente
os do lado de lá
verdadeiros senhores
mandantes e gestores
que seu nome desconhecem
e os nossos, de cá
mormente trabalhadores
que lutam quando alvorecem
e sorriem, sinceros
por saberem que Roma
não paga a traidores!

José Eduardo

sexta-feira, 24 de abril de 2020

litania da facharia

à conta de um bicho estranho
que nos prende a todos em casa
todos não, intervenho...
porque alguns estão em brasa
aqueles cujo trabalho
além de duro como o c*
os obriga a fazer, sem engenho
dos conselhos, tábua rasa!

Mas dizia que à conta dele
do bicho que se agarra à pele
sem emprego, sem vintém
erguemos todos a mão
e demos força ao pregão
"vamos todos ficar bem"

Mas dinheiro não traz o vento
e para comer já nem fruta
vai daí começa a luta
que os gajos do parlamento
esses grandes filhos da p*
enquanto eu não tiver pão
não festejam a revolução

Vou mas é ligar ao patrão
que prometeu voltar a chamar
esse sim, não é vilão
não festeja a revolução
e logo que isto acalmar
e se for embora a doença
dos bons se vai lembrar
e me dá a recompensa!

Que saudades que eu tenho
é do tempo de salazar
e agora já não me contenho
vou mas é protestar
nas páginas do facebook
nos comentários dos jornais
revolucionários ninguém os atura
"se quereis acabar com o tuc tuc
então ides sachar milheirais"
olhai mas é pró ventura
não é como esses que tais
é homem sem lacunas
não é nenhum gandaio
como esses, os comunas
que se apressam antes de mais
a ir festejar o 1 de maio!

José Eduardo


domingo, 8 de março de 2020

muito homem tem de morrer


Não se enaltece hoje uma qualquer,
não se eleva toda aquela que vier
mas essa que trabalha
a mesma que te arruma a tralha
e que quando te cai o corpo à palha
dá-te a sopa à colher...

Infeliz criatura que serpenteia
porque após a lida vem a ceia
passe ela o dia ocupada
trajando de executiva ou criada
trata tudo sem ganhar mais nada
exigem-lhe ainda um ar de sereia
mas a sua alma cansada
puxa-a com força a sentir-se baleia!

Grite-se pois bem alto à guerreira
fortes vivas à mulher trabalhadora
não a prazo, mas agora
que a arquiteta e a ceifeira
tenham direito à sua hora
que igualdade não é ousadia
felicidade não é heresia
derrube-se a força opressora
que sou eu... és tu... sem fantasia.

Eleva pois a mulher poderosa
tanta vez de franzina aparência
não vás de orquídea, não vás de rosa 🌹
vai de punho erguido em oponência
Contra ti mesmo, se tiver de ser
que para a igualdade ser possivel
muito homem tem de morrer.

José Eduardo

domingo, 22 de dezembro de 2019

a véspera de natal

Não foi preciso a mãe chamar...
A ansiedade com que se havia deitado tratou de o fazer madrugar. Ainda o relógio da sala não se tinha pronunciado às oito badaladas e já os meiotes de Vitorino se passeavam pela cozinha. O odor de que ontem sentia falta estava hoje ali e evidenciava-se a modos de o levar a abraçar a cintura da mãe, algo que do alto dos seus doze anos já considerava humilhante, caso fosse visto por algum dos parceiros de escola.
Era canela, pinhão, leite e ovos, raspa de limão, calda doce para aqui, massa crua para ali, sonhos perfeitos e rugir em som estridente na fritadeira, colher de pau incessante na árdua tarefa de mexer o leite creme e o avental... O mesmo avental de sempre, à cintura de sua mãe, o mesmo odor, que outros estranhariam, mas Vitorino conhecia e mantinha como assunção de que tudo estava perfeito, assegurado pela sensatez e sabedoria da mais bela mulher de todas, a sua mãe!
Olhou pela janela e tudo estava perfeito... O tempo ameaçava chuva mas Vitorino tinha a certeza de que não passaria dali. Afinal, era véspera de Natal e nas vésperas de natal nada pode acontecer de mal. O frio que se adivinhava lá fora levava-o a cerrar os olhos e valorizar o quentinho da cozinha, a cozinha da véspera de Natal.
De imediato se lembrou que tinha tarefas e, mesmo que não o fizesse, a mãe, autoritária, se encarregaria de o lembrar. Não, desta vez, não se desfaria em lamúrias...
Era véspera de Natal, e nas vésperas de natal nada pode acontecer de mal!
Todos os pensamentos apontavam à noite que ali se desenhava. Todos os pensamentos serviam para amortecer o peso da carga de lenha que tinha de transportar para junto da lareira. Todos os pensamentos ajustavam as inúmeras ordens que a mãe lhe dirigia no sentido que, ela própria, conseguir preparar o banquete da noite. Ela própria atarefadíssima, ainda que, no pensamento de Vitorino, houvesse certezas de que estaria tão feliz e extasiada quanto ele.
Ainda no canto da lenha, já abrigada há uns meses e que, pela concentração em tão pequeno espaço, exalava um odor a mofo que, também este, identificava como "o cheiro certo das coisas", ali, enquanto recolhia, um a um, os melhores cavacos e os imaginava em lume, mais logo, e de como esse lume lhe invadiria olhos e mente em mais uma contribuição de felicidade certa, viu passar o pai. Galochas calçadas e samarra vestida, ia lá atrás, junto ao tanque, onde um daqueles cestos da vindima conservava o bacalhau de molho e o protegia das artimanhas do gato que não tinha dono. Era a hora certa... o Pai sabia tudo destas artes dos tempos e preparos das vitualhas festivas. Com a mãe, formavam a equipa perfeita na arte de manter a felicidade familiar que, como todos sabem, depende muito dos prazeres da boca. Estava perfeito... Cada lombo retirado da água, só possível à mão única porque o pai era, ele mesmo, oponente e abrangente, não só de sentimentos mas também estrutural, era como cada um dos episódios da telenovela da noite, grande e de previsível conjugação de sensações. O pai sabia mantê-los no ponto, antes de perder todo o sabor da salga porque o bacalhau, como ele dizia, deve saber ao que é! Vitorino cedo tinha notado este erro de noção, porque tinha a certeza de que o bacalhau, antes de capturado e preparado, não sabia a sal nenhum! Mas quem queria saber disso? Era uma das frases feitas que se acostumara a ouvir e por nada deste mundo queria deixar de o fazer.
Deu por si a acrescentar um cavaco ao braçado a cada posta de bacalhau que o pai acrescentava ao balde, aquele balde que havia sido aproveitado de algo comprado na venda, mas cujo desgaste estrutural já não permitia saber o quê.
Mais havia a fazer, e ainda tinha de ir ao sótão... A quantidade excecional de gente que se sentaria mais logo à mesa obrigava a que todo o arsenal de bancos disponíveis na casa fosse preparado e limpo, sempre na incerteza de estar assegurada a plenitude de rabos sentados a rigor.
Todos os pensamentos incidiam no serão daquele dia, a véspera de natal, a noite cuja única certeza de Vitorino era a de que o sono viria cedo demais, como em todos os anos anteriores, mas acalentava o sonho de, pelo menos desta vez, aguentar mais além, noite dentro, até à missa do galo, onde todos afluiriam, de faces rosadas e olhos brilhantes, e até o mais ríspido se apresentaria embuido do espírito de natal.
Todos os pensamentos projetavam a mais bela noite do ano, e ainda havia tanto para fazer!

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Pais que lutam

Isaías não tem ainda idade para perceber as coisas da vida, mas vive-as, como qualquer criança da sua idade, vive-as intensamente.
Acordou cedo, o pai havia ja saído para o trabalho na doca. Isaías não sabe se havia mesmo trabalho, ouviu nos dias anteriores falar em greve, não sabe o que isso é, mas a convivencia da palavra com a expressão "luta dos trabalhadores" fazia-o depreender que o momento não era bom, e preferia que o pai ficasse em casa.
Isaías havia-se ja habituado a perceber que era mau sinal quando o pai não ia trabalhar. "Não há trabalho para mim", dizia o pai em tom conformado à mae no dia anterior após mais um telefonema... O dia que se seguia era um misto sentimentos contraditórios. Era o Pai quem o acordava, tarde, para levar à escola ou, algumas vezes, para nem à escola ir. Eram esses os dias que Isaías gostava, os dias em que passavam o tempo todo juntos, jogavam à bola no campo do bairro ao lado e o Pai lembrava o artilheiro do Benfica cujas alegrias dadas o tinham levado a entregar o nome ao próprio filho. Eram umas boas horas de diversão, que logo davam lugar a outras, em que Isaías sentia o pai ainda mais distante do que se tivesse ido trabalhar. Isaías sentia que esses dias, sem trabalho, feriam de morte a dignidade do pai e, a cada um, o sentia mais distante. Isaías sentia-se culpado por, na sua condição de criança, querer sempre o pai em casa.
Nesse dia o pai não estava, por isso acordara cedo. A Mãe vestia-o e, excecionalmente, não havia colocado a TV no canal para criancas. Ainda que o tenha pedido, percebeu que o "tem calma" que recebeu da mãe escondia algo mais. Percebeu melhor ainda quando a mãe o mandou calar enquanto enfiava a fralda da camisola interior por dentro das calcas e em resposta a uma qualquer observação que fizera... Olhou melhor... Aquilo não lhe era estranho... Aquelas roupas de trabalho... Sim, eram iguais às do Pai. Isaías não sabia ler mas distinguia as mesmas letras pela mesma ordem nas costas daquele casaco fluorescente que aprendeu a admirar. Era mesmo o trabalho do pai... Polícia? Com máscaras e escudos? Trabalhadores sentados no chao? Câmaras de televisão e jornalistas? Gente que gritava palavras de ordem que não conseguia ouvir e... O Pai!!!! "Mãe!!! Eu vi o pai!!!!" 
"Cala-te e deixa ouvir", foi a resposta que ouviu ao mesmo tempo que descortinou uma lágrima que a mae não conseguiu conter. Percebeu então que aquilo era grave. Se a mãe respondia daquela forma, aquilo tinha de ser grave
Que estariam ali a fazer os polícias? Ouviu falar em navio fantasma, os trabalhadores num autocarro, muita gente a ver... Ia jurar que o patrão do pai tinha presenteado os trabalhadores mais fiéis com uma aventura, mas... A Mãe estava séria! Os polícias tinham cara de maus, só podiam ser maus, se estavam, como lhe parecia, contra o Pai, eram de certeza maus! 
Isaías não entende... A Mãe percebe a confusão que vai na cabeça do menino e diz-lhe que deve ter orgulho no Pai que está ali na televisão a lutar por um futuro melhor para si.
Isaías é criança, e não entende, ja não gosta de polícias, se estão contra o seu Pai que só precisa de trabalho e tempo consigo, então não gosta de policias... Isaías não entende, mas acredita na mãe. Há-de contar aos amigos, na escola, que o seu pai passou na TV em posição brava, lutando por um futuro melhor. Soa-lhe bem, é o que chega para amar ainda mais o seu pai!


domingo, 3 de junho de 2018

Rotundo vocábulo

Nasceu querendo ser poeta, mas fizeram dele arquiteto!
Do estirador só lhe saíam rotundas!

quarta-feira, 21 de março de 2018

abaixo o castelo ao capital

a mágoa de querer e não poder
angústia por de mim não depender
porque tenho de passar por isso,
porque tenho de sofrer?

O desgosto de ver o tempo a passar
e a felicidade que teima em não entrar
quando sorrirão os meus,
quando será que isto vai acabar?

não lamento ter de lutar pela existência
não choro o remeter-me à sobrevivência
mas doi... se doi...
subjugar-me à prepotência!

Acabe-se pois com a diferença
e distruibua-se por igual
decrete-se a abolição da tença
e toque o seu a cada qual

Arre!

Erga-se o trabalhador
erga-se quem produz
grite o explorado produtor
acenda-se pois a luz
do proletário e pensador
e faça-se a revolução...
Obrigue-se o burguês
a dividir o quinhão
acabe-se com aquilo que está mal
deite-se já abaixo
o castelo ao capital!