Já não te livras da fama
do cheiro a musgo e da lama,
e do frio que punhas no respirar.
Lembra-me bem o encanto
e a densidade do manto
de neblina que espalhavas no ar.
Havia namoros de verão
pela frescura do chão
e da leveza que emprestaste aos sentidos.
Testemunhaste promessas
beijos trocados sem pressas
e guardaste sussurros julgados perdidos.
Quero sentir
de novo, o feno nos pés...
Quero viver
agora, o que já não és...
Labirintos de alma
percorridos sem calma
Como viagens... longas... sem fim!
Selvagem vegetação
aventuras do pé para a mão
emoções arrancadas de mim.
E se a lembrança chega até hoje
é porque a ideia não foge,
do bem que soube viver em sitios assim.
Quero sentir
de novo, o feno nos pés...
Quero viver
agora, o que já não és...
Aqueles pinheiros altos
os muros verdes, corridos aos saltos
e a sanidade do viver natural.
Cavernas e grutas
inventadas por cabeças brutas,
e era ali que assentávamos o arraial.
Por fim, a alegria vivida
nos mergulhos que ousámos dar
no tanque do campo, de carne despida
não só de roupa, mas do preconceito
do cumprimento dado sem jeito
na hora da despedida.
Espera por mim na nuvem em que me deito,
depois do éter tragado a preceito.
sinto que o tempo me escapa entre os dedos
e ainda não enchi o peito
para enfrentar todos os medos
Quero sentir
de novo, o feno nos pés...
Quero viver
hoje, o que já não és...
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sábado, 25 de janeiro de 2014
o negro
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poema
terça-feira, 5 de julho de 2011
rude
Firmino ainda hoje se lembrará de serem estas as palavras com que o Chico ousou quebrar aquele silêncio constrangedor que se prolongara para lá do confortável.
Já era costume que assim fosse mas, que diabo, ainda nenhum se habituara àquilo. Desde que naquele sábado de S. João se encavalitaram ambos no parapeito da janela da casa de banho do "Ti Cosme". Sôfregos se seguravam de cabeças encostadas e braços trémulos como quem lutava pela própria vida, e ali, durante escassos segundos, apreciaram a pálida nudez da Carminda no banho, cândida, trintona, solteira e desinteressada, tímida e inconscientemente se oferecendo à vista de dois marmelos imberbes que, não mais de meia dúzia de minutos passados, se masturbavam ambos e de forma voraz por debaixo do valado do passal e descobriam pela primeira vez as maravilhas e o prazer da consumação. Desde esse dia, cuja noite, é certo, lembravam melhor, era assim que acabavam as tardes de domingo que, na forma simplória de campónios que eram ou, para sermos mais honrosos, pela camaradagem que os unia, teimavam em passar juntos e invariavelmente terminavam ali... Deitados sob a vasta ramada de aromáticos cachos de americano que cobria o Paúl do "ti Antone" se deixavam envolver pela frescura do rio que se habituaram a ter como certo e terminavam ejaculando sobre beldroegas e línguas de ovelha que alguém, no dia seguinte, viria por certo cegar, e soltavam urros ou grunhidos de que ambos se envergonhavam por saberem que a vontade era de gritar o nome de Carminda, essa que, sem o saber, tinha dado a cada um deles, pela primeira e única vez em suas vidas, seu corpo de fêmea à apreciação, essa mesmo, no entanto, moça feia, encalhada, por quem ambos mas cada um por si, envergonhadamente se sentiam apaixonados. E era por um dos dois motivos, a ideia de Carminda e a sessão de masturbação conjunta, senão os dois em simultâneo, que cada um dos franganotes se continuava a sentir deveras constrangido e com um nó na garganta dificílimo de desatar a cada domingo que passava, na hora em que o sol já não vai alto... E foi com essa sensação de "deja-vu", se é que se pode aplicar o termo, que Firmino aproveitou para ajudar à escapada do silêncio encetada pelo Chico perguntando:
- E tem melrinhos, esse ninho? - mas nem se apercebeu da resposta do amigo e companheiro:
- Ah?! Que ninho?!!
José Eduardo
José Eduardo
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Minho
domingo, 13 de março de 2011
Desencontro
Tempos houve em que ele não gostava dela… A figura franzina, de pernas espetadas em sapatilhas metodicamente escolhidas em função única do conforto que proporcionam. A cara sardenta, o cabelo cujas pontas finalizavam em pequenos totós porque um corte curto era sempre uma escolha mais prática. Toda a sua figura representava a personificação do estereótipo de criança insípida. Apesar disso era-lhe, a ele, impossível não reparar no brilho que invadia o olhar dela a cada vez que se lhe dirigia.
A ele, que sempre se achou um pacóvio ignorante camuflado numa permanente interpretação de jovem culto e estudioso, arrepiava-o a possibilidade de representar o alvo de tamanha admiração para alguém e, por isso, sentia o coração invadir a garganta e deixar todo o seu interior vazio e frio a cada vez que se cruzavam e os inocentes olhos daquela pirralha se enchiam de sorrisos tímidos e admiração a si destinados.
Mas não… tal não podia ser… Como haveria ele de encarar os demais mancebos a quem acompanhava nos momentos de estroinice se soubessem de tal facto? Como poderia ele continuar a envolver-se no meio esteticamente viril em acto e pensamento? Seria de uma humilhação insuportável… A possibilidade de se ver privado de convivências nas quais sabia de antemão que o seu carácter não se reflectia mas achava que teria de ser assim… Que o seu coração pleno de amor e cavalheirismo para com as meninas estaria enganado e a realidade seria obviamente à moda daquela gente. De tal forma se esforçava por se convencer daquilo que sabia ser mentira que até conseguiu e, assim pensando, nunca poderia retribuir aquela simpatia, aquele fascínio, aquele Amor!!! Tal não poderia continuar… era impossível entusiasmar-se com a adoração que lhe dedicava a menina franzina de pernas espetadas em sapatilhas confortáveis e cujo conjunto sardas / totós lembravam personagens de banda desenhada…
Foi já bem tarde que descobriu o amor, quer dizer… foi já bem tarde que descobriu a lascívia e a devassidão! Ao cabo de tantos anos negando os ímpetos cavalheirescos que lhe invadiam a alma, acabou por descobrir a beleza dos prazeres que os mesmos lhe proporcionavam. Aprendeu que a simpatia e um sorriso comprometido lhe abriam as portas de um mundo cheio de deleites, gozos e delícias indolentes que o transportavam aos campos do transcendente… deliciosamente transcendente…
Mas ó diabo! Como era possível que tudo isto contribuísse para o avivar de memórias?
A cada vez que raciocinava acerca disso, acabava por lembrar a tamanha negação a que a havia sujeitado… a ela, menina franzina de pernas espetadas em sapatilhas confortáveis e sardas e totós que lembravam a banda desenhada… a ela… que agora descobria ter sido o seu único verdadeiro Amor!
Os anos passaram… e a ausência dela nunca o incomodou tanto quanto agora o seu regresso.
O olhar dele perde-se agora por umas longas pernas nada espetadas que, nas suas calças skinny de dupla lã, terminam em moderníssimas (não menos confortáveis) e extremamente femininas sabrinas que passaram a envolver seus pés agora propositadamente delicados.
O pensamento perde-se na finíssima cintura de uma blusa branca com motivos de extremo bom gosto e que apresenta um irresistível decote nada generoso mas pleno de sensualidade e determinação. As sardas não se ficaram pela face e, para ele, isso tornava-a ainda mais presente e complementava aquele novo estilo e personalidade, aquele novo ar… Um ar de mulher confiante, sabida, estudada… Tudo o que ele outrora julgava ter sido.
O tom da sua pele havia escurecido e isso contribuía para acentuar o contraste com o branco do olhos que, pasme-se, continuavam a brilhar… mas já não para ele…
É por isso que sofre agora… Preferia que o ignorasse, mas não, continua a sorrir-lhe, só que já não por admiração. Continua a sentar-se na mesma mesa de café que ele, agora não porque o deseje, apenas porque é simpática e se apercebe que ele é, agora, um desgraçado emocional nada empreendedor…
Dói-lhe ainda mais pela empenhada simplicidade dela… Dói-lhe porque se senta ao pé de si, acende de forma burguesa um cigarro e enceta uma conversa que, dada a forma e conteúdo interessantes, o deveria fascinar mas…
Os olhos dela já não brilham para si!
mini conto por: José Eduardo
Fotografia: Créditos incluídos na foto
mini conto por: José Eduardo
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