era uma vez um burrinho que num prado mui mansinho pastava com mansidão e ao pé dele descansava o seu dono que mostrava ser feliz como os que são mas eis que estranho ruido chega dos dois ao ouvido e põe-se o dono a perguntar: ouviste ou foi ilusão? são ladrões. olha que são que te vão levar consigo. volta o burro o doce olhar ainda a roer devagar e diz pró dono que o guarda: e se um ladrão me levar acaso terei que usar em cima desta, outra albarda? então responde-lhe o dono: uma coisa só me apraz essa ideia tola afasta pois uma albarda te basta e outra albarda não traz. eis que então disse-lhe o burro: pois então fuja você porque o perigo certo vê eu por mim, fico a pastar se esta albarda que me assenta não diminui nem aumenta de que me serve abalar? ensinava este burrinho a quem se mostra tolinho e tratos a vida dá que é tolice afadigar-se e em passos longos cansar-se pra ficar aonde está! excerto de Paradela, Miranda do Douro, do "Povo que canta" de Michel Giacometti
“…O divino e o profano dão ali as mãos, num amplo entendimento. O céu desce um pouco, a montanha sobe mais, e ninguém sabe ao certo a que reino pertence. Com a cuba do estômago cheia e a imagem da Santa espetada na fita do chapéu, um homem sente-se capaz de tudo: de matar o semelhante e de comungar. Ouve-se um padre-nosso e uma saraivada de asneiras ao mesmo tempo. E apaga-se naturalmente do espírito a estrema que separa o mundo real do irreal. Só quem vem de peito feito para cumprir à risca a devoção que o traz, seja ela qual for, consegue encontrar pé num tal mar de contradições.”
in "A festa", Novos contos da montanha - Miguel Torga
Miguel Torga, Miguel Torga poemas, Miguel Torga biografia, Miguel Torga bibliografia, Miguel Torga poesia, Miguel Torga bichos, Miguel Torga novos contos da montanha, Miguel Torga vida e obra, Miguel Torga coimbra, Miguel Torga escola, Miguel Torga trás os montes, Miguel Torga vila real, Miguel Torga contos, Miguel Torga provincia