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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

fandango minhoto



O fandango de uma velha
Fez-me doer a barriga
Já não quero mais fandango
Se não for duma rapariga.

Eu gosto muito de pêras
Sendo elas cabaçais
Eu gosto muito das velhas
Mas das novas muito mais.

Eu dantes para te ver
Sete janelas abria
Agora p’ra te não ver
Outras sete fecharia

Eu gosto muito de ver
As pernas às raparigas
Se são grossas ou delgadas
Se são curtas ou compridas

sábado, 18 de abril de 2015

profusão

era uma vez um burrinho
que num prado mui mansinho
pastava com mansidão
e ao pé dele descansava
o seu dono que mostrava
ser feliz como os que são
mas eis que estranho ruido
chega dos dois ao ouvido
e põe-se o dono a perguntar:
ouviste ou foi ilusão?
são ladrões. olha que são
que te vão levar consigo.
volta o burro o doce olhar
ainda a roer devagar
e diz pró dono que o guarda:
e se um ladrão me levar
acaso terei que usar
em cima desta, outra albarda?
então responde-lhe o dono:
uma coisa só me apraz
essa ideia tola afasta
pois uma albarda te basta
e outra albarda não traz.
eis que então disse-lhe o burro:
pois então fuja você
porque o perigo certo vê
eu por mim, fico a pastar
se esta albarda que me assenta
não diminui nem aumenta
de que me serve abalar?
ensinava este burrinho
a quem se mostra tolinho
e tratos a vida dá
que é tolice afadigar-se
e em passos longos cansar-se
pra ficar aonde está!

excerto de Paradela, Miranda do Douro, do "Povo que canta" de Michel Giacometti

terça-feira, 7 de agosto de 2012

incomensurável

.
Há coisas cujo valor não se mede nem se explica... O cheiro a jasmim é uma delas!


sábado, 26 de junho de 2010

a festa


“…O divino e o profano dão ali as mãos, num amplo entendimento. O céu desce um pouco, a montanha sobe mais, e ninguém sabe ao certo a que reino pertence. Com a cuba do estômago cheia e a imagem da Santa espetada na fita do chapéu, um homem sente-se capaz de tudo: de matar o semelhante e de comungar. Ouve-se um padre-nosso e uma saraivada de asneiras ao mesmo tempo. E apaga-se naturalmente do espírito a estrema que separa o mundo real do irreal. Só quem vem de peito feito para cumprir à risca a devo­ção que o traz, seja ela qual for, consegue encontrar pé num tal mar de contradições.”

in "A festa", Novos contos da montanha - Miguel Torga

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