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quinta-feira, 7 de abril de 2016

a bestificação

(...) Nos dias santificados, dormia-se até quase às dez horas da manhã; depois a gente séria e casada vestia o seu melhor fato e ia à missa, censurando aos novos a sua indiferença em matéria religiosa. Ao regressarem da igreja, comiam tortas de massa, e deitavam-se de novo até à tarde.
A fadiga acumulada durante longos anos tirava o apetite; para poderem comer, era preciso beberem muito, excitarem o estômago preguiçoso com a ardência do álcool.
Pela tarde, passeavam indolentemente pelas ruas; os que possuíam capas de borracha punham-nas, ainda que o tempo estivesse seco; os que tinham um guarda-chuva, com ele saíam, ainda que fizesse sol. Não é dado a toda a gente possuir um impermeável ou um guarda-chuva, mas cada qual ambiciona superiorizar-se ao seu vizinho, seja de que maneira for.
Quando se formavam grupos, conversava-se acerca da fábrica, das máquinas, dizia-se mal dos contra-mestres. As palavras e os pensamentos não se referiam a mais do que a coisas relacionadas ao trabalho. A inteligência desastrada e impotente lançava apenas umas centelhas isoladas, um ténue clarão na monotonia dos dias. Ao voltarem para casa os maridos buscavam questões para discutirem com as mulheres, batendo-lhes muitas vezes, sem pouparem as suas forças. Os novos ficavam na taverna ou organizavam pequenas reuniões em casa dum ou doutro, tocavam harmónio, cantavam canções estúpidas e ignóbeis, dançavam, contavam histórias obscenas e bebiam em excesso. Extenuados pelo trabalho, estes homens embriagavam-se facilmente, e em cada peito desenvolvia-se uma excitação doentia, incompreensível que precisava de encontrar saída. Então, pelo mais fútil pretexto, atiravam-se uns aos outros como animais selvagens. Havia contendas sangrentas. (...)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A viagem do elefante, José Saramago

Nas férias, cá por casa, comem-se livros ao invés de comida!!! É um vício que, como qualquer outro, tende a assumir custos imódicos se não controlado... Controlar então a leitura? nãã!!! Controla-se o preço de compra.
Comprei o livro num conhecido site de leilões online pela quantia de 10€, usado, mas em bom estado. Já está lido (estou de novo à volta de José Luis Peixoto) e foi mais do mesmo, foi Saramago... A narrativa segue inteiramente a linha de "Caim" e a forma intensa de brincar com a caracterização humana está tão presente como no anterior. É adoravel a forma como Saramago sempre colocava a sensatez do lado dos fracos e oprimidos (o cornaca Subhro é exemplo disso) e a sua condescendência para com as atitudes presunçosas dos ricos e poderosos atribuindo-lhes a característica como anomalia genética. Livro simples, de leitura facil, mas pleno de abordagem ao comportamento humano e, mais uma vez, elevando uma tal de sensatez nos animais.




quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Rayuela, jazzuela...



Acabo de ler o capítulo 17 de Rayuela, de Julio Cortázar (O jogo do mundo, na edição portuguesa) e este final de capítulo constitui estímulo capaz de me remeter à escrita de umas quantas palavras (veja-se o sacrifício)...

A verdade é que, se mergulhei cegamente na aventura de ler este clássico (quase desconhecido em Portugal) da literatura mundial e incontestável na cena Sul Americana... Se a particularidade de dar nome a um dos temas do último álbum de Gotan Project foi o que bastou para me atirar de encontro a um cartapácio de quase setecentas páginas, pois então começo a ter mais confiança nos meus presunçosos instintos musico-literários (isto até ao próximo embate frontal na decepção)...

Pois bem, não abordando muito a já de si óbvia capacidade de absorção do leitor cujo arquétipo da acção decorrida na Paris boémia-cultural nos proporciona, a verdade é que a escrita de Cortázar, para além de literariamente rica, se revela aqui extremamente fundamentada e estonteantemente envolvida pelos cenários da cultura mundial. Começamos pela literatura e atravessamos a pintura ou outras variadas e vastas formas de arte que salpicam o livro de lés a lés mas, de início a fim, o jazz é rei.
Ora, que mais me poderia calhar em sorte? A cada virar de página vão saltando para fora da encadernação o som e perfume dos blues dos 20's e dos 30's... O piano de Earl Hines e a voz de Bessie Smith partilham e alternam protagonismo com a "corneta" de Benny Goodman e a competência de Jelly Roll Morton. Todo a obra (pelo menos até ao maravilhoso cap. 17) é um livro aberto na romântica semântica da expressão e quase que uma enciclopédia à moda antiga. Pelo menos para mim, tem sido uma maravilhosa fonte de documentação para situar e interpretar muito daquilo que hoje conheço no "país" do jazz...


Abaixo, o final do capítulo 17 de Rayuela (o jogo do mundo) sem a parte que apenas diz respeito ao romance... esta é... a exaltação do jazz!!!


(...)

una trompeta anónima y después el piano, todo entre un humo de fonógrafo viejo y pésima grabación, de orquesta barata y como anterior al jazz, al fin y al cabo de esos viejos discos, de los show boats y de las noches de Storyville había nacido la única música universal del siglo, algo que acercaba a los hombres más y mejor que el esperanto, la Unesco o las aerolíneas, una música bastante primitiva para alcanzar universalidad y bastante buena para hacer su propia historia, con cismas, renuncias y herejías, su charleston, su black bottom, su shimmy, su foxtrot, su stomp, sus blues, para admitir las clasificaciones y las etiquetas, el estilo esto y aquello, el swing, el bebop, el cool, ir y volver del romanticismo y el clasicismo, hot y jazz cerebral, una música-hombre, una música con historia a diferencia de la estúpida música animal de baile, la polka, el vals, la zamba, una música que permitía reconocerse y estimarse en Copenhague como en Mendoza o en Ciudad del Cabo, que acercaba a los adolescentes con sus discos bajo el brazo, que les daba nombres y melodías como cifras para reconocerse y adentrarse y sentirse menos solos rodeados de jefes de oficina, familias y amores infinitamente amargos, una música que permitía todas las imaginaciones y los gustos, la colección de afónicos 78 con Freddie Keppard o Bunk Johnson, la exclusividad reaccionaria del Dixieland, la especialización académica en Bix Beiderbecke o el salto a la gran aventura de Thelonius Monk, Horace Silver o Thad Jones, la cursilería de Erroll Garner o Art Tatum, los arrepentimientos o las abjuraciones, la predilección por los pequeños conjuntos, las misteriosas grabaciones con seudónimos y denominaciones impuestas por marcas de discos o caprichos del momento y toda esa francmasonería de sábado por la noche en la pieza del estudiante o en el sótano de la peña, con muchachas que prefieren bailar mientas escuchan Star Dust o When your man is going to put you down , y huelen despacio y dulcemente a perfume y a piel y a calor, se dejan besar cuando es tarde y alguien ha puesto The blues with a feeling y casi no se baila, solamente se está de pie, balanceándose, y todo es turbio y sucio y canalla y cada hombre quisiera arrancar esos corpiños tibios mientras las manos acarician una espalda y las muchachas tienen la boca entreabierta y se van dando al miedo delicioso y a la noche, entonces sube una trompeta poseyéndolas por todos los hombres, tomándolas con una sola frase caliente que las deja caer como una planta cortada entre los brazos de los compañeros, y hay una inmóvil carrera, un salto al aire de la noche, sobre la ciudad, hasta que un piano minucioso las devuelve a sí misma, exhaustas y reconciliadas y todavía vírgenes hasta el sábado siguiente, todo eso en una música que espanta a los cogotes de platea, a los que creen que nada es de verdad si no hay programas impresos y acomodadores, y así va el mundo y el jazz es como un pájaro que migra o emigra o inmigra o transmigra, saltabarreras, burlaaduanas, algo que corre y se difunde y esta noche en Viena está cantando Ella Fitzgerald mientras en París Kenny Clarke inaugura una cave y en Perpignan brincan los dedos de Oscar Peterson, y Satchmo por todas partes con el don de ubicuidad que le ha prestado el Señor, en Birmingham, en Varsovia, en Milán, en Buenos Aires, en Ginebra, en el mundo entero, es inevitable, es la lluvia y el pan y la sal, algo absolutamente indiferente a los ritos nacionales, a las tradiciones inviolables, al idioma y al folklore: una nube sin fronteras, un espía del aire y del agua, una forma arquetípica, algo de antes, de abajo, que reconcilia mexicanos con noruegos y rusos y españoles, los reincorpora al oscuro fuego central olvidado, torpe y mal y precariamente los devuelve a un origen traicionado, les señala que quizás había otros caminos y que el que tomaron no era el único y no era el mejor, o que quizá había otros caminos y que el que tomaron era el mejor, pero que quizá había otros caminos dulces de caminar y que no los tomaron, o los tomaron a medias, y que un hombre es siempre más que un hombre y siempre menos que un hombre, más que un hombres porque encierra eso que el jazz alude y soslaya y hasta anticipa, y menos que un hombre porque de esa libertad ha hecho un juego estético o moral, un tablero de ajedrez donde se reserva ser el alfil o el caballo, una definición de libertad que se enseña en las escuelas, precisamente en las escuelas donde jamás se ha enseñado y jamás se enseñará a los niños el primer compás de un ragtime y la primera frase de un blues, etcétera, etcétera.

I could sit right here and think a thousand miles away,
I could sit right here and think a thousand miles away,
Since I had the blues this bad, I can’t remember the day…

(...)

sábado, 3 de julho de 2010

sofisma

(...)

-Você não procura o amor, procura deus. Entregue-se de vez.
-Não posso. Ninguém se entrega a nada. Nem a deus! A própria ideia dele é um sofisma. Acredita-se na sua omnipotência, para que ela seja uma salvaguarda da nossa permanência...

(...)

Miguel Torga, in: Conto "O Absoluto" - Pedras lavradas (1951)
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quinta-feira, 24 de junho de 2010

o artilheiro

(...)

- Carlos Pinto, um seu criado! O Artilheiro... - proclamou, alto e bom som, no silêncio da sala, o filho do Alma em Pé.

E o Tribunal não pôde deixar de ter um sorriso de simpatia pelo moço que, da pequenez a que fora condenado, atirava à cara carrancuda da justiça aquela grande e poderosa palavra.

- Artilheiro, é boa! - fungava o delegado, a imaginar o que seria uma praça com pouco mais de um metro de altura a manobrar os canhões de Amarante.

Se perguntassem em Malhão o nome do autor de todas as alcunhas que no povo definiam quem tinha definição, ninguém sabia. A crisma nascia anónima e certeira, englobando num, só palavra um mundo de realidades contraditórias, admiráveis e ridículas, bonitas e feias, dignas de indulgência e merecedoras de escárnio. A história humana da terra estava inteira nos apelidos dos seus filhos. João, António, Francisco, Carlos da Lousa ou Joaquim da Fonte individualizavam gente, mas não testemunhavam vida e acção. Já Fogo-Morto, Nalguinhas, Chega-me-Isso e Pé-Tolo exprimiam defeitos e virtudes concretas que todos conheciam. Eram instantâneos onde a aldeia podia ver os seus títeres ao natural. Às vezes o apodo não tinha aparentemente qualquer significação. Lafunfa, por exemplo, não queria dizer nada. E, contudo, nenhuma palavra podia retratar tão completamente a pessoa atarracada, frascária e casamenteira da Gregória.

O portador do cartaz zombeteiro, como uma truta presa no anzol, a princípio saltava e barafustava. A tudo Malhão assistira, nesse capítulo. Zangas, injúrias e tiros, até! O curioso é que daí a pouco tempo a própria vítima se servia desse cartão de identidade, mais explícito e universal.

- Saiba V. S.a que a minha graça é Gabriel dos Anjos... - explicava o interessado, a tentar receber no Banco um cheque que lhe manda o filho do Brasil.

- Acredito. Mas traga., traga um fiador... Ou então arranje uma casa comercial que o abone...

- Talvez V. S.a tenha ouvido falar no Luminárias...

- Ai vossemecê é que é o célebre Luminárias! Mas Isso é outro cantar!... Assine aqui...

Embora a coisa fosse um bocadito amarga e dolorosa, o rabo-leva era tão simples e prático que não havia remédio senão um homem resignar-se. De resto, nem todos se mostravam igualmente sensíveis a estas radiografias cruéis. A maioria aceitava com estoicismo e dignidade o diagnóstico colectivo. E à cabeça do rol desses heróis estava o Artilheiro.

Lapantim, muito teso dentro da roupa, desde pequeno que qualquer coisa na sua pessoa denunciava uma impossibilidade eterna de chegar ao estalão. E um dia a alcunha surgiu, justa por antinomia. O Carlos, porém, não se deixou vencer pela chacota. Foi crescendo até onde pôde, aproveitando os milímetros, e à frente da figura mirrada, confiante e risonho, erguia sempre, como um cartaz identificador, o grande nome que Malhão lhe dera.

Nem mesmo na carta que escreveu à Guiomar, quando o tempo do amor chegou, se esqueceu de acrescentar o epíteto de guerra.

Como não recebeu resposta, meteu no caso a Lafunfa, que tentou amaciar a rapariga.

- Valha-te Deus, mulher! É o céu que to manda!

- O Artilheiro?! Eu queria lá um meio-alqueire daqueles! Quando casar, há-de ser com um homem que me aqueça os pés... Não me fale em semelhante enfezado!

- Olha que é como os outros... - insinuava, maliciosamente, a velha alcoviteira. - Experimenta...

- Experimentar?! - exclamou a desamorável, entre ofendida e pasmada.

- Experimentar, é como quem diz... Não quero que te metas com ele na cama... Atendê-lo, a ver...

Batida e pelada como uma fraga do ribeiro, a Lafunfa era a casamenteira da terra. Por um miçoilo de qualquer coisa, não havia cachopa que não levasse à bebida, nem estola que não atasse a mãos namoradas desavindas. Beata, sempre a pregar moralidade, todo o amor de Malhão passava por sua casa.

- Entra... - sussurrava em tom cúmplice a quem, levemente e a altas horas, lhe batia à porta.

- Sou eu, o Abel... - Pois sim, filho. Senta-te ao lume, que eu vou já...

Aparecia embrulhada no chaile e, a cada lamento do apaixonado, só dizia:

- A grande tola!... Coitada, ainda ninguém lhe mostrou a verdade...

Depois, o Romeu saía, a noite apertava as malhas, e o dia só raiava ao fim de muitas horas de suspiros. Mas logo nessa mesma tarde os olhos da ovelha arisca brilhavam com outra brandura e consentimento.

- Farta de o ver estou eu! - defendia-se a Guiomar com bravura. - Olhe que ele vê-se depressa...

- Enganas-te, filha. Enganas-te... Os homens às vezes parecem uma coisa e são outra. Aquele tenho a certeza que é dos tais... Não fales antes de lhe tomares o gosto...

- Quem a ouvir, há-de dizer que já o provou!... - Na minha idade!... Quem me dera! E com mais duas conversas assim o Artilheiro tinha namorada. Mas como sabia o que a velha lutara para conseguir o sim, e como desejava tirar todas as dúvidas à cachopa, não esteve com demoras. Na primeira altura que pôde, em vez de lhe aquecer os pés, aqueceu-lhe o corpo inteiro.

A rapariga viera ao penso para o gado, à tardinha, a uma hora em que as próprias silvas adormecem brandas nas sebes. E o rapaz, que a viu passar, foi-lhe no encalço. Largou a enxada e o lameiro, e resolveu tratar doutra sementeira.

A primeira facha desatou-se. E, quando a moça se baixou à procura do vincilho, duas mãos ávidas e seguras agarraram-na pelos seios de granito.

- Jesus!

O grito alarmado não queria significar recusa.

Surpresa, apenas. Enleada, morna, submissa, a carne aceitava o abraço e o resto que ele prometia.

- Pode vir gente...

- Quem há-de vir? A porta deslizou nos gonzos e, à branda luz que adoçava o medo, os dois deram-se com toda a força da juventude.

Rijo, só músculos e tendões, viril como um gato ágil, o Artilheiro parecia um raio a varar aquela virgindade. E a Guiomar, se não sentia nos braços um homem do tamanho do Marão, abria-se: inteira à eficiência de uma força sem dispersão, rápida, concêntrica e desfibrada.

- Meu amor... Começava uma verdadeira e pura fonte apenas dentro dela e a inundá-la da única paz que é na vida o remédio de todas as feridas.

- Meu amor... Casta., das funduras da alma, a paixão irrompia pela crosta dos sentidos e aparecia à tona em palavras que as outras horas não deixavam dizer.

O rapaz ouvia confusamente a confissão rendida. E uma alegria de triunfo total irradiava-lhe das fontes a latejar. .

Foi no intervalo de dois beijos que um alarme inesperado os acordou.

- Ó Júlia, não viste por acaso a minha Guiomar? Veio ao feno e nunca mais apareceu...

- Eu não senhor! - Vou espreitar aqui à loja. Está a chave na porta...

Invejoso de tanta felicidade, o mundo vinha desprendê-los dum abraço de comunhão perfeita e lançar o Carlos fora da intimidade que o tornava desmedido.

- Guiomar! Onde raio se meteu o demónio da cachopa?

O Artilheiro estava já escondido debaixo de uma meda de canas, e a rapariga limpava e desenrugava a saia como podia.

- Guiomar! - e o velho e a luz entraram de repelão na loja.

- Meu pai...

Bem que o pé remexia o chão, tentava disfarçar o ninho de felicidade. Patente, natural e denunciadora, a cama daquela hora nunca mais se desfigurava.

- Que estavas tu aqui a fazer? Afogueada ainda, a rapariga não respondeu. Que poderia ela responder? A evidência do que se passara metia-se pelos olhos dentro. Não tinha medo, de resto. Tentara apagar as marcas da sua entrega, mais por um sentimento superficial de pudor do que por íntima vergonha. Se alguma coisa lhe pesava ali era não ter a seu lado, altivo, de cara descoberta, o homem que a possuíra.

Sem querer encarar a verdade, o velho quase lhe pedia que o enganasse.

- Anda, responde! Se fosse uma ou duas horas depois, quando dentro dela não ressoasse já a voz alvoroçada do instinto acordado, talvez pudesse mentir-lhe. Em pleno deslumbramento, não.

- Que quer que lhe responda? Não vê?... Ia caindo o palheiro.

- Ó sua recai Sua galdrona! Seu grande coiro! E quem foi o maroto, o safardana? Onde está, que o mato. Mas

A pequenez do Artilheiro começava a ser um pesadelo no espírito da rapariga. Se ao menos o rapaz pudesse ter saído da loja a tempo, pronto, não ouvia o pai e depois o tempo diria. Agora assim alapardado enquanto ele disparatava, era de desesperar.

E foi então que a Guiomar viu novamente crescer diante dela o homem que a Lafunfa lhe prometera. Antes que as coisas passassem a mais, intrépido, digno, o Artilheiro saiu de dentro da moreia e apresentou-se.

- O maroto sou eu, ti Adriano.

- Ó meu excomungado! Meu ladrão, que te bebo o sangue!

- Não se exalte! Isto tinha de se fazer... Amanhã trata-se dos papéis.

- O que tu merecias, bem sei eu, patife! - espumava o velho, a meter-lhe os punhos à cara e a olhar o feno onde os dois tinham rolado.

- Acalme-se, homem de Deus! Não faça escândalo! Lembre-se que vou ser seu genro... E um genro às direitas, verá. Como vossemecê nunca avezou!

Amainado a custo o temporal, silenciosos, deixaram os três o palheiro. No largo, o pai e a filha foram sós para casa.

- Que te aconteceu? - perguntou a Gaudência, intrigada, ao ver entrar o homem carrancudo.

- Olha, foi esta bácora! Fui encontrá-la fechada na loja com o badana do Artilheiro!...

-- Artilheiro' não! Carlos, se faz favor. Pode-lhe chamar pelo nome... - reclamou a rapariga, já senhora de si e cheia da seiva do namorado.

- Com o Artilheiro! Nem me digas! - Pois, então! De tantos rapazes que havia na terra, só lhe serviu o senhor Artilheiro! E com medo que ele lhe fugisse, deu-lhe a esmola antes do padre-nosso... - Já disse que o tratem pelo nome, com mil diabos! - protestava a Guiomar, indignada, e cada vez mais firme no seu amor.

- Cale-se, sua desavergonhada! Só por escárnio! Se algum dia eu calculei que me caía em casa um fedunças daqueles!

À dor sincera do pai misturava-se a raiva do homem. Sem o Adriano querer, o instinto bruxuleante tinha guinadas de rancor a lembrar-se da facha macia e perfumada de feno, pisada e ainda quente no chão.

O rifão popular é que não podia faltar: casa com a filha do rei, que as pazes eu as farei. A vergonha e os melindres foram passando., a vida continuou, e, quando apareceu o primeiro fruto do matrimónio, a família inteira foi baptizá-lo a Paços.

- Ele sai ao pai? - perguntou, ao vê-los, passar, o Mareante, uma das vítimas amorosas de Guiomar, que não engolia o triunfo do Artilheiro.

- Sai, queres ver? - respondeu a mãe babosa, lorpa, a descobrir o crianço.

- Pois sai, sai, coitadinho!... Ainda há-de vir a ter menos um palmo...

O Mareante era um rapagão como uma torre e o Artilheiro, ao pé dele, parecia um frango. Mas ainda todos, o sogro principalmente, estavam a mastigar a ofensa, já o atrevido tinha uma paulada nas fontes e gemia no chão.

Correu gente, acomoda daqui, ampara dali, e vá lá ninguém estancar a bica de sangue que esguichava do toutiço do desgraçado!

- Um meio tostão daqueles, hein?! - comentava o Sequinho. - Pequenino, pequenino, e por um triz que não lhe punha os miolos ao sol!

Na vila, que só com uma operação de urgência se lhe podia valer. Nada mais que trepanar-lhe a cabeçal

Lá o salvaram, mas no tribunal, depois, é que foram elas! O próprio advogado torcia o nariz. As coisas estavam muito fuscas.

- Bem escusávamos disto, se tu fosses outra! - resmungava o Adriano, com os olhos no genro, muito teso, prestes a sentar-se no banco dos réus. - Olhe lá não lhe caia a pedra de armas! - refilou a Guiomar, cada vez mais orgulhosa do marido.

- Silêncio! Como se chama? E foi então que o rapaz, corajoso e leal, disse escaroladamente ao juiz o seu nome civil e o apelido que Malhão lhe dera. E como o crime não era de morte nem fora premeditado, e há pessoas que entram no coração da gente sem se saber por quê, o magistrado ouviu as testemunhas e a defesa, pensou, pensou, mediu as razões do ofendido, e acabou por aconselhar ironicamente ao Mareante que para outra vez tivesse mais juízo, e não se metesse com homens de brios, de mais a mais Artilheiros!

(...)

Miguel Torga, in: Novos Contos da Montanha
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terça-feira, 15 de junho de 2010

os contos do torga

Nos intervalos entre leituras efectivamente propostas há um livro de arcaboiço considerável que me salva. Os Contos de Miguel Torga são o que de melhor se pode ter à mão. Muitos e bons, de leitura fácil e cativante por nos prender a enredos simples e quotidianos e nos aproximar do Portugal profundo, vão-me entretendo enquanto tarda a próxima ida à livraria...
Precisamente pelo facto de puxarem para si um papel pouco vistoso nos meu dia-a-dia, sinto que devo realçar por cá o valor que realmente têm... são para mim do melhor que há...

Mais abaixo pode ler-se aquele cujo cenário entrei, percorri, observei, ouvi, ajuizei e voltei a sair... há uns minutos atrás...




Destinos
(...)
Foram uns amores singulares, aqueles. No Junho, as cerdeiras punham por toda a veiga uma nota viva, fresca e sorridente. As praganas aloiravam, as cigarras zumbiam, as águas de regadio corriam docemente nas caleiras, e dos verdes maciços de folhas leves e ondulantes, emoldurados no céu, espreitavam a primavera, curiosos, milhares de olhos túmidos e vermelhos. Era domingo. E ele subira por desfastio à velha bical dos Louvados a matar saudades de menino.
- Não dás um ramo, ó Coiso? - perguntou do caminho a rapariga.
- Dou, dou! Anda cá buscá-lo. Pela voz, pareceu-lhe logo a Natália. Mas só depois de arredar a cabeça de uma pernada é que se confirmou.
- Não estás de caçoada? - Falo a sério!
Era bonita como só ela. Delgada, maneirinha, branca, e de olhos esverdeados, fazia um homem mudar de cor.
- Olha que aceito! - E eu que estimo... Tinha já no chapéu algumas cerejas colhidas, reluzentes, a dizer comei-me.
- Não teimes muito...
- Valha-me Deus!... A rapariga atravessou então o valado, entrou na leira e chegou-se, risonha,
- Segura lá na abada... Encandearam os olhos um no outro, ela de avental aberto, ele de rosto afogueado, deram sinal, e a dádiva desceu, generosa e doce.
Vista de cima, a Natália ainda cegava mais a gente. O queixo erguido dava-lhe um ar de criança grande; os seios, repuxados, pareciam outeiros de virgindade; e o resto do corpo, fino, limpo, tinha uma pureza de coisa inteira e guardada.
- Terão bicho?
- Têm agora bicho! Ia-te mesmo dar cerejas com bicho!
Sem querer,, a resposta saíra-lhe expressiva demais. O coração agitou-se um pouco, o instinto, acordado, estremeceu, e os olhos, culpados, fugiram-lhe do rosto da moça e fixaram-se sonhadoramente no céu.
- Bota cá mais meia dúzia. Já que comecei... À medida que se enfarruscava de sumo, a Natália ia-se tomando também num fruto que apetecia colher. Mas recusou-se a vê-la com pensamentos desejosos e atrevidos.
- Segura lá esta pinhoca... Era um lindo ramo que fora buscar à coroa quase inacessível da árvore. As cerejas, libertas da sombra protectora das folhas, tinham-se dado inteiramente ao sol, deixando-se amadurecer por igual, num abandono quente e ditoso.
- Que lindo! - É para que saibas... Concentraram a atenção um no outro, e de tal modo ficaram fascinados, que se ela não dá um grito de aviso, com a oferta vinha o doador também ao chão.
- Cautela!
- Não há perigo. No enlevo em que ficara, o desgraçado até se esqueceu do sítio onde estava.
- Queres mais? - Não, bem hajas... Pôs-se logo a descer, um pouco atarantado por lhe faltarem já as palavras que lhe havia de dizer cá na terra. Ela é que entretanto se escapulira. .- Adeus!...
O namoro, contudo, tinha começado. Sem nunca falarem daquela tarde, sabiam ambos que se amavam e que fora a velha cerdeira bical que lhes aproximara os corações. Pena elo ser o que era: uma natureza tímida, incapaz de um acto rasgado e levado ao fim.
Falavam ao cair da tarde, quando a fresca do anoitecer aligeirava o cansaço das cavas, sem que ninguém reparasse, pois a povoação aceitara já aquela união como um facto natural e acertado - e o rapaz ainda a meio do caminho, atarantado e reticente.
- Que diz vossemecê? - perguntava ele à mãe, à pobre Teodósia, que não via outra coisa na vida senão a felicidade do filho.
- A mim agrada-me... É boa rapariga, e limpa, é jeitosa... - Lá isso... Dizia, e ficava-se calado, indeciso entre o sonho e a realidade.
- Fala à gente! Era sempre a Natália a começar, como no dia das cerejas. Por mais que fizesse, nunca ele se atreveria a dar o primeiro passo. Só quando a rapariga quebrava a distância é que o coitado se abria num contentamento sem medida., tonto e novo como um cabrito. Mas nunca passava de coisas vagas e enternecidas. As palavras concretas magoavam-lhe a boca.
- Ainda não lhe falaste em nada? - Indagava a Teodósia, insárida.
- Não. Mas amanhã... - Ou quererás tu antes que eu lhe diga... ? - Melhor fora! Valha-a Deus! Isso até era uma vergonha!
Lá conhecer os pontos de honra de um homem, conhecia-os ele. A coragem é que não chegava à altura do entendimento.
Infelizmente, a vida não podia parar naquela lírica indecisão. Os meses passavam, as folhas caíam, e outros renovos vinham povoar a terra.
- O João Neca esperou-me ontem à entrada do povo... - começou a Natália, à saída da missa.
- Ah, sim? E depois? - perguntou ele, a sentir o sangue subir-lhe à cara.
- Pediu-me namoro... - deixou ela cair com melancolia.
Era justamente altura de lhe dizer tudo, que a não podia tirar do pensamento, que só quando a levasse ao altar teria paz, que não seria nada no mundo sem os seus olhos verdes ao lado. Mas ainda desta vez o ânimo lhe faltou.
- Bem, tu é que vês... Ele não é mau rapaz... Rasgava-lhe conscientemente o coração com semelhante aquiescência, porque tinha a certeza que desde a primeira hora o amava também. A coragem é que não era capaz doutra coisa.
- Eu queria lá um farçola daqueles! Estou muito bem assim...
Puras palavras de desespero. Tanto ela, que despeitada as dizia, como ele, que culpado as provocara, sabiam que eram o fruto de uma revolta impotente e destinada a morrer.
A pobre Teodósia é que lutava às claras. E dias depois já estava a picar o filho:
- Sabes o que me disseram hoje na fonte? - Que a Natália tem namoro com o João Neca... - respondeu, vencido.
- Nem mais. - Pois tem...
- Já sabias?! Então... e tu? Não a queres? Ou foi ela que te deixou ?
- Eu sei lá o que foi... Dali em diante parecia viver de alma viúva. E a alegria do rosto da rapariga cobriu-se também de um negro véu de desilusão. Passavam um pelo outro e comiam-se com os olhos. Mas nem ele lhe falava no seu amor, nem ela rasgava já a frágil teia de separação.
- Casam-se para a semana... - ia esclarecendo a Teodósia, como um remorso.
- Já sei. - O padre leu hoje os banhos... - Pois leu... Era uma resignação que quebrava a gente, e desarmava. E a velha não encontrava outro alivio senão chorar.
- Morria por ti! - disse-lhe numa manhã, que podia ser de felicidade para os três., e se transformara num pesadelo.
Os sinos tocavam festivamente, ia por toda a aldeia um alvoroço de noivado, e só naquela casa a tristeza se aninhava sombria e desamparada a um canto.
- Também eu gostava dela... Era outra vez Junho, as searas aloiravam já, e nas cerdeiras, polpudas, rijas, as cerejas tomavam uma cor avermelhada e levemente escarninha.
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in: Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

@ Caim (na arca de noé)

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Entretanto, porém, uma das noras de noé, a mulher de cam, havia morrido num acidente. Ao contrário do que deixámos antes dito ou dado a entender, havia uma grande necessidade de mão-de-obra na barca, não de marinheiros, é certo, mas de pessoal de limpeza. Centenas, para não dizer milhares de animais, muitos deles de grande porte, enchiam a abarrotar os porões e todos cagavam e mijavam que era um louvar a deus. Limpar aquilo, baldear toneladas de excrementos todos os dias era uma duríssima prova para as quatro mulheres, uma prova física em primeiro lugar, pois dali saíam exaustas as pobres, mas também sensorial, com aquele insuportável fedor a merda e urina que traspassava a própria pele.

Foi num desses dias de tempestade desabalada, com a arca a ser sacudida pela tormenta e os animais a atropelarem-se uns aos outros, que a mulher de cam, tendo escorregado no chão imundo, foi acabar sob as patas de um elefante. Lançaram-na ao mar tal como se encontrava, ensanguentada, suja de excrementos, um mísero despojo humano sem honra nem dignidade. Por que não a limparam antes, perguntou caim, e noé respondeu, Vai ter muita água para se lavar. A partir deste momento e até ao final da história, caim irá odiá-lo de morte.

Diz-se que não há efeito sem causa nem causa sem efeito, parecendo portanto que as relações entre uma coisa e outra deverão ser em cada momento, não só patentes, mas compreensíveis em todos os seus aspectos, quer consequentes quer subconsequentes. Não nos arriscamos a sugerir que deva ser incluída neste quadro geral a explicação da mudança de atitude da mulher de noé. Pode ela ter pensado simplesmente que, faltando a mulher de cam, outra deveria ocupar o seu lugar, não para acolitar o viúvo nas suas noites agora solitárias, mas para recuperar a harmonia antes vivida entre as fêmeas mais novas da família e o hóspede caim, ou, por palavras mais claras e directas, se antes ele tinha três mulheres à sua disposição, não havia nenhum motivo para que não continuasse a tê-las. Mal sabia ela que na cabeça do homem rondavam ideias que tornavam absolutamente secundária a questão. Em todo o caso, como uma coisa não empata a outra, caim acolheu com simpatia os avanços dela, Aqui onde me vês, apesar da idade, que já não é a da primeira juventude, e tendo parido três filhos, ainda me sinto muito apetecível, e tu que achas, caim, perguntara ela. Havia muito tempo que deixara de chover, a enorme massa de água entretinha-se agora a macerar os mortos e a empurrá-los docemente, no seu eterno balanceio, para a boca dos peixes. Caim tinha assomado à janela para ver o mar que resplandecia sob a lua, havia pensado um pouco em lilith e em seu filho enoch, ambos mortos, mas de uma maneira distraída, como se não lhe importasse muito, e foi então que ouviu sussurrar ao seu lado, Aqui onde me vês.

Dali foram, ele e ela, para o cubículo onde caim costumava dormir, não esperaram sequer que noé, já entregue aos braços de morfeu, se ausentasse do mundo, e, quando acabaram, o homem teve de reconhecer que a mulher tinha razão no juízo que sobre si própria havia feito, ainda estava ali para lavar e durar, e mostrava ter, em certos momentos, uma experiência acrobática a que as outras não haviam conseguido chegar, fosse por falta de vocação natural, fosse por inibição causada pela actuação tradicional dos respectivos maridos.

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

juizos de valor

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Precisava de um burro, ainda que tivesse de o roubar, mas nós, que o vamos conhecendo cada vez melhor, sabemos que não o fará. Apesar de assassino, Caim é um homem intrinsecamente honesto, os dissolutos dias vividos em contubérnio com lilith, ainda que censuráveis do ponto de vista dos preconceitos burgueses, não foram bastantes para perverter o seu inato sentido moral da existência, haja vista o corajoso enfrentamento que tem mantido com deus, embora, forçoso é dizê-lo, o senhor nem de tal se tenha apercebido até hoje, salvo se se recorda a discussão que ambos travaram diante do cadáver ainda quente de Abel.
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fotografia: José Eduardo
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

@ caim

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Então viram um grande ajuntamento de homens em frente à casa de lot, os quais gritavam, Queremos esses que tens aí, manda-os cá para fora porque queremos dormir com eles, e davam golpes na porta, ameaçando deitá-la abaixo. Disse abraão, Vem comigo, damos a volta à casa e chamamos ao portão das traseiras. Assim fizeram. Entraram quando lot, por trás da porta da frente, estava a dizer, Por favor, meus amigos, não cometam um crime desses, tenho duas filhas solteiras, podem fazer o que quiserem com elas, mas a estes homens não façam mal porque eles procuraram protecção na minha casa. Continuaram os de fora furiosamente aos gritos, mas de repente os clamores mudaram de tom e agora o que se ouvia eram lamentações e choros, Estou cego, estou cego, era o que diziam todos, e perguntavam, Onde está a porta, aqui havia uma porta e já não está. Para salvar os seus anjos de serem brutalmente violados, destino pior que a morte segundo os entendidos, o senhor havia cegado a todos os homens de sodoma sem excepção, o que prova que, afinal, nem dez inocentes havia em toda a cidade. Dentro de casa os visitantes diziam a lot, Vai-te deste lugar com todos aqueles que te pertencerem, filhos, filhas, genros, e tudo o mais que tiveres nesta cidade porque nós viemos para a destruir. Lot saiu e foi avisar os que estavam para ser seus futuros genros, mas eles não acreditaram e riram-se do que julgaram ser uma brincadeira. Era já madrugada quando os mensageiros do senhor tornaram a insistir com lot, Levanta-te e leva daqui para fora a tua mulher e as tuas duas filhas que ainda estão contigo se não queres ser também apanhado pelo castigo da cidade, não é essa a vontade do senhor, mas é o que inevitavelmente sucederá se não nos obedeceres. E, sem aguardar resposta, agarraram-no pela mão, a ele, à mulher e às duas filhas, e levaram-nos para fora da cidade. Abraão e caim foram com eles, mas não os acompanhariam às montanhas como os demais estiveram a ponto de fazer por conselho dos mensageiros, se não fosse lot ter pedido que os deixassem ficar numa pequena cidade, quase uma aldeia, chamada zoar. Vão, disseram os mensageiros, mas não olhem para trás. Lot entrou na cidadezinha quando o sol estava a nascer. O senhor fez então cair enxofre e fogo sobre sodoma e sobre gomorra e a ambas destruiu até aos alicerces, assim como a toda a região com todos os seus habitantes e toda a vegetação. Para onde quer que se olhasse só se viam ruínas, cinzas e corpos carbonizados. Quanto à mulher de lot, essa olhou para trás desobedecendo à ordem recebida e ficou transformada numa estátua de sal. Até hoje ainda ninguém conseguiu compreender por que foi ela castigada desta maneira, quando tão natural é querermos saber o que se passa nas nossas costas. É possível que o senhor tivesse querido punir a curiosidade como se se tratasse de um pecado mortal, mas isso também não abona muito a favor da sua inteligência, veja-se o que sucedeu com a árvore do bem e do mal, se eva não tivesse dado o fruto a comer a adão, se não o tivesse comido ela também, ainda estariam no jardim do éden, com o aborrecido que aquilo era. No regresso, por casualidade, detiveram-se por um momento no caminho onde abraão tinha falado com o senhor, e aí caim disse, Tenho um pensamento que não me larga, Que pensamento, perguntou abraão, Penso que havia inocentes em sodoma e nas outras cidades que foram queimadas, Se os houvesse, o senhor teria cumprido a promessa que me fez de lhes poupar a vida, As crianças, disse caim, aquelas crianças estavam inocentes, Meu deus, murmurou abraão e a sua voz foi como um gemido, Sim, será o teu deus, mas não foi o delas.
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sábado, 16 de janeiro de 2010

Lido... como que ouvido, e sorvido!!!

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Já as pálpebras tinham começado a pesar-lhe quando uma voz juvenil, de rapaz, o fez sobressaltar, O pai, chamou o moço, e logo uma outra voz, de adulto de certa idade, perguntou, Que queres tu, isaac, Levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o sacrifício, e o pai respondeu, O senhor há-de prover, o senhor há-de encontrar a vítima para o sacrifício. E continuaram a subir a encosta. Ora, enquanto sobem e não sobem, convém saber como isto começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar. Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. Chegando assim ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac. Não, não era certo, caim não é nenhum anjo, anjo é este que acabou de pousar com um grande ruído de asas e que começou a declamar como um actor que tivesse ouvido finalmente a sua deixa, Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque eu o impedi. O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor, Tarde, disse caim, Vale mais tarde que nunca, respondeu o anjo com prosápia, como se tivesse acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde, respondeu-lhe caim. O anjo resmungou, Mais um racionalista, e, como ainda não tinha terminado a missão de que havia sido encarregado, despejou o resto do recado, Eis o que mandou dizer o senhor, Já que foste capaz de fazer isto e não poupaste o teu próprio filho, juro pelo meu bom nome que te hei-de abençoar e hei-de dar-te uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu ou como as areias da praia e eles hão-de tomar posse das cidades dos seus inimigos, e mais, através dos teus descendentes se hão-de sentir abençoados todos os povos do mundo, porque tu obedeceste à minha ordem, palavra do senhor. Estas, para quem não o saiba ou finja ignorá-lo, são as contabilidades duplas do senhor, disse caim, onde uma ganhou, a outra não perdeu, fora isso não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque abraão obedeceu a uma ordem estúpida, A isso chamamos nós no céu obediência devida, disse o anjo. Coxeando da asa direita, com um mau sabor de boca pelo fracasso da sua missão, a celestial criatura foi-se embora, abraão e o filho também já lá vão a caminho do lugar onde os esperam os criados, e agora, enquanto caim ajeita os alforges no lombo do jumento, imaginemos um diálogo entre o frustrado verdugo e a vítima salva in extremis.
Perguntou isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-te o braço, que o senhor o cubra de bênçãos, estarias agora a levar um cadáver para casa, A ideia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou isaac, O futuro o dirá, Então o senhor é capaz de tudo, do bom, do mau e do pior, Assim é, Se tu tivesses desobedecido à ordem, que sucederia, perguntou isaac, O costume do senhor é mandar a ruína, ou uma doença, a quem lhe falhou, Então o senhor é rancoroso, Acho que sim, respondeu abraão em voz baixa, como se temesse ser ouvido, ao senhor nada é impossível, Nem um erro ou um crime, perguntou isaac, Os erros e os crimes sobretudo, Pai, não me entendo com esta religião, Hás-de entender-te, meu filho, não terás outro remédio, e agora devo fazer-te um pedido, um humilde pedido, Qual, Que esqueçamos o que se passou, Não sei se serei capaz, meu pai, ainda me vejo deitado em cima da lenha, amarrado, e o teu braço levantado, com a faca a luzir, Não era eu quem estava ali, em meu perfeito juízo nunca o faria, Queres dizer que o senhor enlouquece as pessoas, perguntou isaac, Sim, muitas vezes, quase sempre, respondeu abraão, Fosse como fosse, quem tinha a faca na mão eras tu, O senhor havia organizado tudo, no último momento interviria, viste o anjo que apareceu, Chegou atrasado, O senhor teria encontrado outra maneira de te salvar, provavelmente até sabia que o anjo se ia atrasar e por isso fez aparecer aquele homem, Caim se chama ele, não esqueças o que lhe deves, Caim, repetiu abraão obediente, conheci-o ainda não eras nascido, O homem que salvou o teu filho de ser degolado e queimado no molho de lenha que ele próprio havia trazido às costas, Não o foste, meu filho, Pai, a questão, embora a mim me importe muito, não é tanto ter eu morrido ou não, a questão é sermos governados por um senhor como este, tão cruel como baal, que devora os seus filhos, Onde foi que ouviste esse nome, A gente sonha, pai...
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Let's play together...

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(...) E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em plena pelota extreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparado em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos filhos, no fim de contas, são tão bons ou maus como os demais. (...)
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in: "Caim" de José Saramago, (2009)
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sábado, 12 de dezembro de 2009

entre aspas...

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(...) "O génio justiceiro e prudente de Maria obscurecia-se, os seus ralhos perdiam a autoridade ante a presença calma, quase indolente e que dava a impressão duma reservada e perigosa força, daquele homenzinho que patriarcalmente presidia à ceia e a quem os melhores bocados eram oferecidos num prato à parte, como num ritual, e que ele rejeitava sempre, quase com o pudor de se ver distinguido, se bem que outros costumes nunca os pudesse admitir. Gostava de distribuir pelos filhos a sua ração especial, mas só depois de ter tido ocasião de a recusar." (...)
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in: A sibila, de Agustina Bessa Luis
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

a desonra

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(...) - O meu filho está preso, Senhora Quininha - Disse-lhe a mãe. - Eu endoudo!
Para um camponês, A prisão tem um significado mais desonroso que o próprio crime. O crime é ofensa feita à natureza, mas a perda da liberdade tem mais um sentido de ofensa contra o homem. (...)
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in: "A Sibila" de Agustina Bessa Luís

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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Leituras que ficam...

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(...)aquele cirandar cheio de dignidade que o vexava e lhe produzia remorsos; então calava-se também e no seu coração aquela atitude ia roendo até a imaginação a transformar em ofensa e ele acabar por sobrepôr-se às suas culpas como a vítima mais lamentável. O seu egoismo fazia-o infantil, e das dores que ele próprio motivava restava-lhe na consciência um sabor de injustiça por qualquer mínima represália.(...)
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in: "A Sibila" de Agustina Bessa Luis
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terça-feira, 24 de março de 2009

Alma solitária

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(...)Ah, mas eu não tenho essa consistência e perseverança dos descobridores! Eu sou leviano e ligeiro, sou mais dado às sensações do que às realiza­ções, mais depressa me sirvo a mim do que à Pátria. Gra­ças a Deus, não nasci em 1500: nasci tarde de mais para o desconhecido, cedo demais para a lucidez. Não sei que procuro, mas sei do que fujo. Não sei o que encontro, mas sei que vou, que flutuo - como este grande balão, devagar e em frente, suspenso sobre tudo o que são as certezas, a terra firme onde os outros são felizes e realizados e eu não(...)
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Miguel Sousa Tavares
in: Rio das Flores, Ed. Oficina do Livro, Lisboa, Outubro 2007