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quinta-feira, 7 de abril de 2016

a bestificação

(...) Nos dias santificados, dormia-se até quase às dez horas da manhã; depois a gente séria e casada vestia o seu melhor fato e ia à missa, censurando aos novos a sua indiferença em matéria religiosa. Ao regressarem da igreja, comiam tortas de massa, e deitavam-se de novo até à tarde.
A fadiga acumulada durante longos anos tirava o apetite; para poderem comer, era preciso beberem muito, excitarem o estômago preguiçoso com a ardência do álcool.
Pela tarde, passeavam indolentemente pelas ruas; os que possuíam capas de borracha punham-nas, ainda que o tempo estivesse seco; os que tinham um guarda-chuva, com ele saíam, ainda que fizesse sol. Não é dado a toda a gente possuir um impermeável ou um guarda-chuva, mas cada qual ambiciona superiorizar-se ao seu vizinho, seja de que maneira for.
Quando se formavam grupos, conversava-se acerca da fábrica, das máquinas, dizia-se mal dos contra-mestres. As palavras e os pensamentos não se referiam a mais do que a coisas relacionadas ao trabalho. A inteligência desastrada e impotente lançava apenas umas centelhas isoladas, um ténue clarão na monotonia dos dias. Ao voltarem para casa os maridos buscavam questões para discutirem com as mulheres, batendo-lhes muitas vezes, sem pouparem as suas forças. Os novos ficavam na taverna ou organizavam pequenas reuniões em casa dum ou doutro, tocavam harmónio, cantavam canções estúpidas e ignóbeis, dançavam, contavam histórias obscenas e bebiam em excesso. Extenuados pelo trabalho, estes homens embriagavam-se facilmente, e em cada peito desenvolvia-se uma excitação doentia, incompreensível que precisava de encontrar saída. Então, pelo mais fútil pretexto, atiravam-se uns aos outros como animais selvagens. Havia contendas sangrentas. (...)

quarta-feira, 17 de julho de 2013

João Grande, de uma obra ainda sem nome.


Em vias de incrementar o esforço por voltar à escrita... Na verdade, gostava de terminar este projeto! Fica aqui um cheirinho!!!



(...)

João, filho de lavradores, gostava de Aida…
João era um rapaz crescido e, por toda a sua vivência, havia já experimentado gostar de muitas raparigas. Porém, desde há uns tempos que achava diferente o sentimento que dedicava àquela pequena que, ainda há pouco, deixara de ser criança.
Não havia dia que passasse sem que João se convencesse a si mesmo de que aquele não era um gostar qualquer, era especial… Era um gostar que lhe apertava a garganta a cada vez que a via no quintal ao passar para as várzeas… Era um gostar que fazia com que sentisse ciúme de todos aqueles marmanjos que rondavam a azenha da várzea em adulação aos atributos físicos da pequena… Era um gostar que o levava a adorar a beleza angelical inerente à idade da pequena e não tanto a opulência do seu peito… Era um gostar  que o fazia ter mais gosto no cultivo das várzeas do que das Searas, esquisito num agricultor exemplar…
Era um gostar… um gostar especial que João tinha a certeza ser o único homem, no mundo, a sentir… Era um gostar que doía, e doía cada vez mais por pensar que a garota nem o olhava, ainda que, a cada vez que passava, se empenhasse num cumprimento de voz trémula a que ela respondia seca e aparentemente sem interesse.
João era filho único e os pais, lavradores desenrascados, sonhavam grande futuro para o rapaz. Talvez por isso o tenham mandado para o Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo, em Braga, de influência Jesuíta que lhe viria a proporcionar uma riqueza cultural invejável mas que João, incompreensivelmente, apenas revelava nas noites de embriaguês coletiva da taberna do adro. Porém, para grande pesar de seus pais, João fora apanhado no flagrante dado a uma investida organizada pela maior parte dos seminaristas a uma casa boémia em Dume, execrável maldição para a terra de Martinho da Panóia, esse santo bispo vindo da Hungria para doutrinar o povo minhoto, que a Igreja decretou santo e cujo epitáfio sepulcral autorredigido costumava ser perversamente adulterado em cânticos de bebedeira pelos seminaristas que acorriam à casa boémia de dume. Muitos contaram também, ainda que o autor nunca tal tenha visto e como tal não possa garantir, que havia sido desenvolvida pelos alunos do seminário maior uma versão de “Pro Repellenda Iactantia”1, essa obra primeira do santo da Panóia que defendia a supressão da bazófia fundada por leis de moral, versão essa que, adquirindo título de encadernação à socapa, gozava honras de catecismo junto dos alunos do seminário menor, o da Nossa Senhora da Conceição.
Assim, João, que estes caminhos e os outros conhecia de cor, viria a ser apanhado na hora da rusga encomendada, não a beber o vinho tinto em taças transbordantes como todos os outros, nem a cantarolar ofensas à cobarde fuga dos bispos bracarenses para Lugo durante a invasão muçulmana, em versos de rima duvidosa que alguns dominavam. Como sempre, era a petulante Joana que o chamava à casa de Dume, que tinha o descaramento de usar um majestoso crucifixo sobre a oponência do peito generosamente descoberto. Nessa noite de suposta ida ao cinema, João seria apanhado de surpresa sobre o suculento corpo da Joana enquanto esta se empenhava em veemências de queixume acerca da generosidade do rapaz no que a tamanho se refere. Este íntimo pormenor de ocasião havia de passar entre os guardas, ganhando legitimamente o epíteto de boca de caserna até, por particularidades de relacionamentos familiares ou camaradagem entre os membros de ambos os lados, chegar aos corredores do dormitório do seminário Conciliar e entranhar-se em João, complementando-lhe para toda a vida o nome próprio com que havia sido batizado em S. Julião.
Deixemo-nos de bisbilhotices – que curiosidade do leitor aguça o vício do autor – e passemos à narração da sucessão de acontecimentos a partir daqui. Curiosamente – ou talvez não, pelo cedo que era – João sería o único a ser apanhado com a boca na botija, estranha metáfora que, nem eufémica ou disfémica, levará o leitor a  sentenciar a ligeireza do autor por óbvia constatação de que talvez todos, à exceção de João, estariam, àquela hora, a usar a boca, veículo único conhecido para receber o tal néctar dos deuses ou sangue do diabo, conforme o variar da perspectiva, e o coitado do rapaz, por lhe ter faltado a paciência ou ter-se rendido à líbido juvenil, estaria já empenhando outra ferramenta que não a cavidade bucal.
Ponhamos a perversidade de parte para explicar que, perante a particularidade da contagem e atribuição de culpa ou pecado, fácil terá sido por se tratar de um único rapaz, para a reitoria do seminário, aplicar exemplar castigo e aviso aos demais. Chamados os pais a Braga, sequiosos de pranto estes bispos, não foram sequer capazes de esconder ao humilde casal o verdadeiro motivo do castigo. Valeu ao rapaz ter um pai compreensivo e pouco amante desta gente que teima em vestir saias e dar a mão a beijar. O Velhote apenas queria ver o rapaz formado, não o queria ver padre. Não deixou de passar ao filho o solene raspanete mas acordou com a esposa que o assunto morreria ali e jamais a aldeia haveria de descobrir que não foi a consciência do rapaz a ditar que não serviria condignamente os preceitos da santidade e inerente desistência do estudo. Já não se sabe é como a “nobiliária” alcunha chegou chegou à terra, a verdade é que João grande seria para sempre, em S.Julião como em Braga, ainda que na primeira se desconhecesse o real motivo e  ignorantemente se presumisse inerente à estatura do moço.
E foi assim que João Grande passou ao lado de uma vida diferente. Espiritual e espirituosamente rico, o rapaz agora homem optou por se dedicar a alegremente sorver a pacatez da aldeia e a desenvolver a cultura das terras dos pais com sagacidade mas sem inovação.

E assim, pacato era também o amor que dedicava à pequena de seios fartos que crescia por entre os paúis junto ao rio. Não raras vezes a viu refrescar-se nas frias águas que rodeavam a azenha, isenta de pudores por se julgar só, e dava por si a recriminar a imaginação que lhe sugeria parecenças com Joana, a moça libertina da casa de Dume. Não, Aida era pura, era jovem, seria certamente virgem e carinhosa por inerência da idade. Aida era linda, mas não era sua.
(...)

as sete mulheres do minho by Segue-me a Capela on Grooveshark AS SETE MULHERES DO MINHO by José Afonso on Grooveshark

domingo, 4 de março de 2012

o caminho das várzeas


Camariñas by Luar na Lubre on Grooveshark


(...)
Era muito bonita esta Aida do Moinho e não era portanto de admirar o constante correrio da vasta variedade de marmanjos em idade de líbido crescente pelo caminho das várzeas. O facto de terminar em pleno moinho do velho Abel e, por isso, não permitir justificações de passagem aleatória e desinteressada, jamais viria a inibir alguém. Além do mais, a natural beleza do local assente em elevadíssima riqueza bucólica sempre foi mais que suficiente para levar famílias inteiras  munidas da cesta do merendelo ou tocadores de concertina nos domingos à tarde. Ali se juntavam cantando, dançando, namoriscando, refrescando os pés no leito do rio que corria molengão ou refastelando-se à sombra depois de mamado o farnel, roendo uma meticulosamente escolhida palha de feno no espaço confinado ao alcance de um braço. Mas isso era aos domingos… Por aquela altura, a presença de Aida era o motivo da passagem, e era fenómeno diário.
Obviamente, Aida sentia-se lisonjeada por tamanha atenção. Nunca foi de alimentar ideias em cabeça alheia por iniciativa própria, era ainda muito nova, mas sabia muito bem ao que vinham todos aqueles rapazes, era por sí, e sabia também que a sua simples presença na romaria de São Sebastião era o suficiente para que uns quantos se informassem junto de outros tantos acerca da identidade daquela jovem menina, formosa, de peito farto.
Disso gostava mas a todos ignorava a pequena Aida. Não os enxotando (gostava de se sentir desejada, ela que era pobre, ao contrário de outras que fidalgas haviam nascido), foi sempre desenvolvendo e aplicando a arte de inibir investidas mais ousadas ou ambiciosas, e tão habilmente o fazia que nunca ninguém ouviu falar da revolta de algum. A pequena sabia cativar amizades e os marmanjos, apercebendo-se da fatal situação de incapacidade para conquistar corpo ou alma, ficavam-se pela amizade empenhando-se, todos sem exceção, na explicação de que, desde o início, jamais lhes havia passado pela cabeça a intenção de posse ou paixão. A verdade é que começavam por rarear as visitas e se dedicavam, a partir dali, à procura de novo alvo dos seus impetuosos disparos de líbido e romance, fosse em São Julião ou nas freguesias vizinhas.
Havia porém – tinha de haver – um moço que lograva convencer os sentimentos de Aida. Tal como num romance deve ser, era ele o que menos se expressava. O João Grande, rapaz que também por alí passava mas que jamais havia investido olhares ou palavras de apreço sobre a bela rapariga. João Grande era filhos de lavradores e donos da maior parte dos terrenos na várzea. Todos os dias por alí passava o Jovem sempre empunhando qualquer ferramenta de trabalho. Da simples enxada à complexa parelha dos bois galegos que puxavam o carro, nunca João por ali passava sem que fosse a trabalho mas sempre Aida saía ao quintal para o ver passar. O simples e respeitoso cumprimento que o rapaz lhe endereçava chegava para alegrar o dia da pequena. Era ele o seu Amor! 
(...)

José Eduardo, in: não publicado, ainda!
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domingo, 23 de outubro de 2011

o livro

...ou melhor, a brochura, o coiso, ou algo que o valha!!!







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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

lido

"Quando eu era pequeno, brincava com carrinhos à volta da mesa da cozinha. Fazia corridas e, embora fosse contra mim, os carrinhos que eu queria que ganhassem ganhavam sempre."


"Perguntei-lhe se ele já sabia que tinham inventado a música. Ele ficou um pouco surpreendido e contou-me de um país distante onde havia um palácio maior do que a montanha, um palácio rodeado de jardins tão imensos que, se uma criança os tentasse atravessar a pé, seria velha quando chegasse ao palácio. Contou-me que havia muitos anos, mil homens inteligentes se tinham fechado nesse palácio a tentar inventar a música."


Pérolas de sensibilidade humano-literária em "Uma casa na escuridão", de José Luís Peixoto

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

podia ser eu...

José Eduardo Andrade tem exatamente esta definição:

"A importância do meu nome muito maior do que a minha consciência, mas menor que eu, menor do que a importância de eu existir num sítio e num instante. O meu nome: três palavras escritas num papel: o nome do meu avô paterno, o nome do meu avô materno e o nome da família do meu pai. Duas estradas que se unem numa só, num caminho sempre em frente, sem ramificações."

José Luis Peixoto, em "Uma casa na escuridão"

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A viagem do elefante, José Saramago

Nas férias, cá por casa, comem-se livros ao invés de comida!!! É um vício que, como qualquer outro, tende a assumir custos imódicos se não controlado... Controlar então a leitura? nãã!!! Controla-se o preço de compra.
Comprei o livro num conhecido site de leilões online pela quantia de 10€, usado, mas em bom estado. Já está lido (estou de novo à volta de José Luis Peixoto) e foi mais do mesmo, foi Saramago... A narrativa segue inteiramente a linha de "Caim" e a forma intensa de brincar com a caracterização humana está tão presente como no anterior. É adoravel a forma como Saramago sempre colocava a sensatez do lado dos fracos e oprimidos (o cornaca Subhro é exemplo disso) e a sua condescendência para com as atitudes presunçosas dos ricos e poderosos atribuindo-lhes a característica como anomalia genética. Livro simples, de leitura facil, mas pleno de abordagem ao comportamento humano e, mais uma vez, elevando uma tal de sensatez nos animais.




sábado, 17 de setembro de 2011

Um cão chamado Edward




quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Histórias daqui e dali, de Luis Sepúlveda

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Eu confesso, não conhecia, e jamais tinha lido algo de Luís Sepúlveda...  Começo assim porque a sinceridade é bela, e porque a beleza da escrita de Luís Sepúlveda me recorda apenas coisas boas. Durante a minha vida, habituei-me a gostar da riqueza literária na escrita, de textos estruturadíssimos que movem emoções e despertam sensações. Pois em "histórias daqui e dali" passa-se exatamente o contrário... Luís Sepúlveda usa um vocabulário directo e simples para contar histórias simples, mas plenas de sentimento! Luís Sepúlveda não romantiza de forma desnecessária, conta histórias de pessoas de quem gosta simplesmente porque lhe mostram gostar dele também... Luís Sepúlveda é homem de trato simples mas de vida complexa, exilado do regime de pinochet, dedicou toda a sua vida à lembrança do "camarada" Salvador Allende!!! Luís Sepúlveda conquistou um pedaço no meu terreno de predilecção... e deu-me a conhecer Edward, o cão que amava a liberdade!!!
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Rayuela, jazzuela...



Acabo de ler o capítulo 17 de Rayuela, de Julio Cortázar (O jogo do mundo, na edição portuguesa) e este final de capítulo constitui estímulo capaz de me remeter à escrita de umas quantas palavras (veja-se o sacrifício)...

A verdade é que, se mergulhei cegamente na aventura de ler este clássico (quase desconhecido em Portugal) da literatura mundial e incontestável na cena Sul Americana... Se a particularidade de dar nome a um dos temas do último álbum de Gotan Project foi o que bastou para me atirar de encontro a um cartapácio de quase setecentas páginas, pois então começo a ter mais confiança nos meus presunçosos instintos musico-literários (isto até ao próximo embate frontal na decepção)...

Pois bem, não abordando muito a já de si óbvia capacidade de absorção do leitor cujo arquétipo da acção decorrida na Paris boémia-cultural nos proporciona, a verdade é que a escrita de Cortázar, para além de literariamente rica, se revela aqui extremamente fundamentada e estonteantemente envolvida pelos cenários da cultura mundial. Começamos pela literatura e atravessamos a pintura ou outras variadas e vastas formas de arte que salpicam o livro de lés a lés mas, de início a fim, o jazz é rei.
Ora, que mais me poderia calhar em sorte? A cada virar de página vão saltando para fora da encadernação o som e perfume dos blues dos 20's e dos 30's... O piano de Earl Hines e a voz de Bessie Smith partilham e alternam protagonismo com a "corneta" de Benny Goodman e a competência de Jelly Roll Morton. Todo a obra (pelo menos até ao maravilhoso cap. 17) é um livro aberto na romântica semântica da expressão e quase que uma enciclopédia à moda antiga. Pelo menos para mim, tem sido uma maravilhosa fonte de documentação para situar e interpretar muito daquilo que hoje conheço no "país" do jazz...


Abaixo, o final do capítulo 17 de Rayuela (o jogo do mundo) sem a parte que apenas diz respeito ao romance... esta é... a exaltação do jazz!!!


(...)

una trompeta anónima y después el piano, todo entre un humo de fonógrafo viejo y pésima grabación, de orquesta barata y como anterior al jazz, al fin y al cabo de esos viejos discos, de los show boats y de las noches de Storyville había nacido la única música universal del siglo, algo que acercaba a los hombres más y mejor que el esperanto, la Unesco o las aerolíneas, una música bastante primitiva para alcanzar universalidad y bastante buena para hacer su propia historia, con cismas, renuncias y herejías, su charleston, su black bottom, su shimmy, su foxtrot, su stomp, sus blues, para admitir las clasificaciones y las etiquetas, el estilo esto y aquello, el swing, el bebop, el cool, ir y volver del romanticismo y el clasicismo, hot y jazz cerebral, una música-hombre, una música con historia a diferencia de la estúpida música animal de baile, la polka, el vals, la zamba, una música que permitía reconocerse y estimarse en Copenhague como en Mendoza o en Ciudad del Cabo, que acercaba a los adolescentes con sus discos bajo el brazo, que les daba nombres y melodías como cifras para reconocerse y adentrarse y sentirse menos solos rodeados de jefes de oficina, familias y amores infinitamente amargos, una música que permitía todas las imaginaciones y los gustos, la colección de afónicos 78 con Freddie Keppard o Bunk Johnson, la exclusividad reaccionaria del Dixieland, la especialización académica en Bix Beiderbecke o el salto a la gran aventura de Thelonius Monk, Horace Silver o Thad Jones, la cursilería de Erroll Garner o Art Tatum, los arrepentimientos o las abjuraciones, la predilección por los pequeños conjuntos, las misteriosas grabaciones con seudónimos y denominaciones impuestas por marcas de discos o caprichos del momento y toda esa francmasonería de sábado por la noche en la pieza del estudiante o en el sótano de la peña, con muchachas que prefieren bailar mientas escuchan Star Dust o When your man is going to put you down , y huelen despacio y dulcemente a perfume y a piel y a calor, se dejan besar cuando es tarde y alguien ha puesto The blues with a feeling y casi no se baila, solamente se está de pie, balanceándose, y todo es turbio y sucio y canalla y cada hombre quisiera arrancar esos corpiños tibios mientras las manos acarician una espalda y las muchachas tienen la boca entreabierta y se van dando al miedo delicioso y a la noche, entonces sube una trompeta poseyéndolas por todos los hombres, tomándolas con una sola frase caliente que las deja caer como una planta cortada entre los brazos de los compañeros, y hay una inmóvil carrera, un salto al aire de la noche, sobre la ciudad, hasta que un piano minucioso las devuelve a sí misma, exhaustas y reconciliadas y todavía vírgenes hasta el sábado siguiente, todo eso en una música que espanta a los cogotes de platea, a los que creen que nada es de verdad si no hay programas impresos y acomodadores, y así va el mundo y el jazz es como un pájaro que migra o emigra o inmigra o transmigra, saltabarreras, burlaaduanas, algo que corre y se difunde y esta noche en Viena está cantando Ella Fitzgerald mientras en París Kenny Clarke inaugura una cave y en Perpignan brincan los dedos de Oscar Peterson, y Satchmo por todas partes con el don de ubicuidad que le ha prestado el Señor, en Birmingham, en Varsovia, en Milán, en Buenos Aires, en Ginebra, en el mundo entero, es inevitable, es la lluvia y el pan y la sal, algo absolutamente indiferente a los ritos nacionales, a las tradiciones inviolables, al idioma y al folklore: una nube sin fronteras, un espía del aire y del agua, una forma arquetípica, algo de antes, de abajo, que reconcilia mexicanos con noruegos y rusos y españoles, los reincorpora al oscuro fuego central olvidado, torpe y mal y precariamente los devuelve a un origen traicionado, les señala que quizás había otros caminos y que el que tomaron no era el único y no era el mejor, o que quizá había otros caminos y que el que tomaron era el mejor, pero que quizá había otros caminos dulces de caminar y que no los tomaron, o los tomaron a medias, y que un hombre es siempre más que un hombre y siempre menos que un hombre, más que un hombres porque encierra eso que el jazz alude y soslaya y hasta anticipa, y menos que un hombre porque de esa libertad ha hecho un juego estético o moral, un tablero de ajedrez donde se reserva ser el alfil o el caballo, una definición de libertad que se enseña en las escuelas, precisamente en las escuelas donde jamás se ha enseñado y jamás se enseñará a los niños el primer compás de un ragtime y la primera frase de un blues, etcétera, etcétera.

I could sit right here and think a thousand miles away,
I could sit right here and think a thousand miles away,
Since I had the blues this bad, I can’t remember the day…

(...)

sábado, 3 de julho de 2010

sofisma

(...)

-Você não procura o amor, procura deus. Entregue-se de vez.
-Não posso. Ninguém se entrega a nada. Nem a deus! A própria ideia dele é um sofisma. Acredita-se na sua omnipotência, para que ela seja uma salvaguarda da nossa permanência...

(...)

Miguel Torga, in: Conto "O Absoluto" - Pedras lavradas (1951)
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sábado, 12 de junho de 2010

prazeres sentidos




Comienzos...
Lo que motivó el comienzo fue que las vidas que presencio no merecen el silencio
Fue porque el hiphop apareció del amor entre poesía y ritmo y por las aguas de ese rio mi vida fluyó
0 fue porque en el gusto por competir no hay lugar para el cansancio, qué sé yo
Pero sucedió, pase de ser anónimo a ser casi famoso bajo mínirnos
¿Y acaso eso os conmovió? porque al parecer mi mano en contacto con un micrófono me convirtió en pirómano y Paris ardió,
adiós Paris, adiós, adiós mc's, adiós y usted vaya con Dios
Y si baja por esas calles será mejor que le acompañen uno o dos.
Ay, señor, qué pesada es esta espada que desenvaino con sudor,
la soledad del príncipe sin reino, la soledad del hombre sin calor
¿Será que es porque ya no me peino, ni me preparo,
ni visto raro, ni uso perfumes caros cuando salgo en busca de amor?
Soy el mismo chico educado que con un rap vulgar suena en tu radio cada día,
y que desde el extrarradio ha conquistado a la más alta burguesía,
Pero qué falla, soy yo en esa pantalla, soy yo en esa cola del paro
Comparo mi vida con la tirada de un dado, y sale cero y cero y cero
Y yo sólo espero ser más certero, salir de este agujero en el que estoy atrapado
Soñador, aún duermo con Peter Pan a mi lado,
preguntándome si alguien ahí fuera entenderá a un tipo tan complicado
Pero una extraña fuerza me persigue,
me dice tú simplemente vive, tu simplemente escribe,
Decide en tiempo record y olvida el rencor,
y recuerda lo que el viejo dijo: 'Hijo, en lo que sea, pero el mejor'

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mark Twain morreu há cem anos

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Autor d'As aventuras de Tom Sawyer, o menino que queria navegar no mississipi...
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(...) Mas no mesmo momento de tristeza e desespero, teve uma inspiração. Nada menos que uma grande e magnífica inspiração. Pegou no pincel e pôs-se a trabalhar tranquilamente. Pouco depois apareceu por ali Ben Rogers. De entre todos os rapazes, temia a troça daquele, mais do que de nenhum. Ben vinha a saltar e a pular, comia uma maçã e de vez em quando soltava um melodioso grito seguido por um dingue-dongue-dingue-dongue, como se fosse um barco a vapor.

- Parar a estibordo! Tlim-tlim-tlingue! Parar a bombordo! Avançar para estibordo! Parar! Deixar virar devagar! Tlim-tlim! Tlingue! Tchau-tch-tch! Cuidado com o leme! Depressa, agora! Dois graus a bombordo! O que estão a fazer? Atem uma corda a esse tronco! Encostem agora e deixem seguir. Pararam as máquinas, capitão! Tlim-tlim-tlingue! Cht! Cht! Cht!

Tom continuou a caiar sem fazer caso do barco a vapor. Ao fim de um momento, Ben disse:
-Estás atrapalhado?
Nem palavra. Tom olhava para as últimas pinceladas dadas, com um olhar de artista, depois pegou no pincel e deu outro retoque, tornando a olhar como antes. Ben pôs-se ao lado dele e Tom sentiu crescer água na boca só de olhar para a maçã, mas não parou de trabalhar.

Por fim, Ben perguntou:
- Tens de trabalhar, hein?
Tom voltou-se rapidamente.
- Ah! És tu, Ben! Não tinha dado por ti.
- Olha, vou nadar. Não gostavas de ir também? Já se vê, tens de fazer esse trabalho, não tens? Está claro que tens.
Tom olhou-o por momentos e por fim perguntou-lhe:
- A que é que tu chamas trabalho?
- Então isso não é trabalho?

Tom continuou a caiar e respondeu despreocupadamente:
- Talvez seja e talvez não. O que eu sei é que é muito do agrado de Tom Sawyer!
- Não me queres fazer acreditar que gostas disso. O pincel continuava a mover-se.
- Gostar disto? Não vejo porque não hei-de gostar. Nem todos os dias um rapaz como nós tem ocasião de pintar um tapume.

Isto punha as coisas noutro pé.

Ben parou de comer a maçã. Tom pintava cuidadosamente, movendo o pincel de um lado para o outro, dava um passo atrás para ver o efeito, retocava aqui e ali, tornava a ver o efeito e, entretanto, Ben olhava para tudo aquilo cada vez mais entretido, até que, passados momentos, disse:
- Deixas-me caiar um bocadinho, Tom?

Tom pensou um instante, esteve quase a consentir, mas mudou de ideia.
- Não, não! Não pode ser, Ben. Bem vês, a tia Polly é muito exigente com este tapume. Deita para a estrada... Ainda se fosse do lado de trás não me importava e ela naturalmente também não. Mas ela tem lá umas esquisitices com esta vedação. O serviço tem de ser feito com muito cuidado. Em mil rapazes, talvez até em dois mil, não haveria outro que o fizesse como deve ser.
- Não? É muito difícil? Deixa-me experimentar! Só um bocadinho! Eu, se estivesse no teu lugar e tu fosses eu, deixava.
- Ben, eu também gostava de te deixar, palavra, mas a tia Polly... Olha, o Jim quis fazer isto, e ela não deixou; Sid quis fazê-lo e ela não deixou. Ela não deixou Sid! Já vês a minha atrapalhação. Se tu caiasses isto e acontecesse alguma coisa?!
- Ora! Tolices! Eu tomo tanto cuidado como tu. Deixa-me experimentar! Olha, dou-te o cascabrulho da minha maçã.
- Pois sim... Não, Ben, não pode ser. Tenho medo...
- Dou-te toda a maçã que ainda tenho.

Tom abandonou o pincel, mostrando certa relutância, mas, com o coração cheio de alegria e enquanto aquele que pouco antes era um barco a vapor trabalhava e suava ao sol, o artista reformado sentou-se num barril à sombra a abanar as pernas, a mastigar a maçã e a planear o sacrifício de outros inocentes.

Material não faltava, porque os rapazes passavam constantemente. Vinham para troçar, mas ficavam a caiar. Quando Ben estava estafado, Tom aproveitou a ocasião para contratar Billy Fisher, que lhe deu uma estrela de papel em bom uso. Logo que este se mostrou farto, Johny Miller deu um rato morto com uma corda atada ao rabo, para que o deixassem caiar um bocado.

O negócio continuou assim, e, quando se chegou ao meio da tarde, Tom deixara de ser o pobre que era de manhã, para nadar em riqueza, pois tinha adquirido, além das coisas já mencionadas, doze berlindes, parte de um berimbau, um estilhaço de vidro azul para ver através dele, o resto de uma espingarda, uma chave que não servia para nada, um pedaço de giz, a rolha de vidro de um frasco, um soldado de chumbo, um casal de rãs, um puxador de uma porta, uma coleira de cão (sem cão), um cabo de faca, quatro bocados de casca de laranja e um bocado de janela.

Passara um bocado de tempo agradável e a preguiçar, sempre acompanhado, e o tapume levara três demãos de cal. Se se não tivesse acabado a cal, teria conseguido arrastar todos os rapazes da aldeia para a bancarrota. Afinal, Tom já não achava que a vida fosse tão oca.

Descobrira, sem o saber, uma grande lei que rege a humanidade e que é: para se conseguir que um homem ou um rapaz cobice uma coisa, basta tornar essa coisa difícil de obter. Se fosse um grande e sábio filósofo, como o autor deste livro, teria compreendido então que trabalho consiste em tudo que se é obrigado a fazer e que prazer consiste naquilo que se não é obrigado a fazer.

Este raciocínio tê-lo-ia ajudado a entender porque se chama trabalho aos trabalhos forçados e a fazer flores artificiais, enquanto que jogar o berlinde ou escalar o Monte Branco não passa de um divertimento.

Há senhores muito ricos, em Inglaterra, capazes de guiar carros de passageiros puxados por quatro cavalos num caminho de vinte ou trinta milhas todos os dias no Verão, porque para isso têm de pagar uma quantia considerável. Mas que se recusariam a fazê-lo se lhes oferecessem um ordenado, pois isso passaria então a ser considerado trabalho.(...)
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

@ Caim (na arca de noé)

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(...)
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Entretanto, porém, uma das noras de noé, a mulher de cam, havia morrido num acidente. Ao contrário do que deixámos antes dito ou dado a entender, havia uma grande necessidade de mão-de-obra na barca, não de marinheiros, é certo, mas de pessoal de limpeza. Centenas, para não dizer milhares de animais, muitos deles de grande porte, enchiam a abarrotar os porões e todos cagavam e mijavam que era um louvar a deus. Limpar aquilo, baldear toneladas de excrementos todos os dias era uma duríssima prova para as quatro mulheres, uma prova física em primeiro lugar, pois dali saíam exaustas as pobres, mas também sensorial, com aquele insuportável fedor a merda e urina que traspassava a própria pele.

Foi num desses dias de tempestade desabalada, com a arca a ser sacudida pela tormenta e os animais a atropelarem-se uns aos outros, que a mulher de cam, tendo escorregado no chão imundo, foi acabar sob as patas de um elefante. Lançaram-na ao mar tal como se encontrava, ensanguentada, suja de excrementos, um mísero despojo humano sem honra nem dignidade. Por que não a limparam antes, perguntou caim, e noé respondeu, Vai ter muita água para se lavar. A partir deste momento e até ao final da história, caim irá odiá-lo de morte.

Diz-se que não há efeito sem causa nem causa sem efeito, parecendo portanto que as relações entre uma coisa e outra deverão ser em cada momento, não só patentes, mas compreensíveis em todos os seus aspectos, quer consequentes quer subconsequentes. Não nos arriscamos a sugerir que deva ser incluída neste quadro geral a explicação da mudança de atitude da mulher de noé. Pode ela ter pensado simplesmente que, faltando a mulher de cam, outra deveria ocupar o seu lugar, não para acolitar o viúvo nas suas noites agora solitárias, mas para recuperar a harmonia antes vivida entre as fêmeas mais novas da família e o hóspede caim, ou, por palavras mais claras e directas, se antes ele tinha três mulheres à sua disposição, não havia nenhum motivo para que não continuasse a tê-las. Mal sabia ela que na cabeça do homem rondavam ideias que tornavam absolutamente secundária a questão. Em todo o caso, como uma coisa não empata a outra, caim acolheu com simpatia os avanços dela, Aqui onde me vês, apesar da idade, que já não é a da primeira juventude, e tendo parido três filhos, ainda me sinto muito apetecível, e tu que achas, caim, perguntara ela. Havia muito tempo que deixara de chover, a enorme massa de água entretinha-se agora a macerar os mortos e a empurrá-los docemente, no seu eterno balanceio, para a boca dos peixes. Caim tinha assomado à janela para ver o mar que resplandecia sob a lua, havia pensado um pouco em lilith e em seu filho enoch, ambos mortos, mas de uma maneira distraída, como se não lhe importasse muito, e foi então que ouviu sussurrar ao seu lado, Aqui onde me vês.

Dali foram, ele e ela, para o cubículo onde caim costumava dormir, não esperaram sequer que noé, já entregue aos braços de morfeu, se ausentasse do mundo, e, quando acabaram, o homem teve de reconhecer que a mulher tinha razão no juízo que sobre si própria havia feito, ainda estava ali para lavar e durar, e mostrava ter, em certos momentos, uma experiência acrobática a que as outras não haviam conseguido chegar, fosse por falta de vocação natural, fosse por inibição causada pela actuação tradicional dos respectivos maridos.

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

juizos de valor

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Precisava de um burro, ainda que tivesse de o roubar, mas nós, que o vamos conhecendo cada vez melhor, sabemos que não o fará. Apesar de assassino, Caim é um homem intrinsecamente honesto, os dissolutos dias vividos em contubérnio com lilith, ainda que censuráveis do ponto de vista dos preconceitos burgueses, não foram bastantes para perverter o seu inato sentido moral da existência, haja vista o corajoso enfrentamento que tem mantido com deus, embora, forçoso é dizê-lo, o senhor nem de tal se tenha apercebido até hoje, salvo se se recorda a discussão que ambos travaram diante do cadáver ainda quente de Abel.
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fotografia: José Eduardo
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

@ caim

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Então viram um grande ajuntamento de homens em frente à casa de lot, os quais gritavam, Queremos esses que tens aí, manda-os cá para fora porque queremos dormir com eles, e davam golpes na porta, ameaçando deitá-la abaixo. Disse abraão, Vem comigo, damos a volta à casa e chamamos ao portão das traseiras. Assim fizeram. Entraram quando lot, por trás da porta da frente, estava a dizer, Por favor, meus amigos, não cometam um crime desses, tenho duas filhas solteiras, podem fazer o que quiserem com elas, mas a estes homens não façam mal porque eles procuraram protecção na minha casa. Continuaram os de fora furiosamente aos gritos, mas de repente os clamores mudaram de tom e agora o que se ouvia eram lamentações e choros, Estou cego, estou cego, era o que diziam todos, e perguntavam, Onde está a porta, aqui havia uma porta e já não está. Para salvar os seus anjos de serem brutalmente violados, destino pior que a morte segundo os entendidos, o senhor havia cegado a todos os homens de sodoma sem excepção, o que prova que, afinal, nem dez inocentes havia em toda a cidade. Dentro de casa os visitantes diziam a lot, Vai-te deste lugar com todos aqueles que te pertencerem, filhos, filhas, genros, e tudo o mais que tiveres nesta cidade porque nós viemos para a destruir. Lot saiu e foi avisar os que estavam para ser seus futuros genros, mas eles não acreditaram e riram-se do que julgaram ser uma brincadeira. Era já madrugada quando os mensageiros do senhor tornaram a insistir com lot, Levanta-te e leva daqui para fora a tua mulher e as tuas duas filhas que ainda estão contigo se não queres ser também apanhado pelo castigo da cidade, não é essa a vontade do senhor, mas é o que inevitavelmente sucederá se não nos obedeceres. E, sem aguardar resposta, agarraram-no pela mão, a ele, à mulher e às duas filhas, e levaram-nos para fora da cidade. Abraão e caim foram com eles, mas não os acompanhariam às montanhas como os demais estiveram a ponto de fazer por conselho dos mensageiros, se não fosse lot ter pedido que os deixassem ficar numa pequena cidade, quase uma aldeia, chamada zoar. Vão, disseram os mensageiros, mas não olhem para trás. Lot entrou na cidadezinha quando o sol estava a nascer. O senhor fez então cair enxofre e fogo sobre sodoma e sobre gomorra e a ambas destruiu até aos alicerces, assim como a toda a região com todos os seus habitantes e toda a vegetação. Para onde quer que se olhasse só se viam ruínas, cinzas e corpos carbonizados. Quanto à mulher de lot, essa olhou para trás desobedecendo à ordem recebida e ficou transformada numa estátua de sal. Até hoje ainda ninguém conseguiu compreender por que foi ela castigada desta maneira, quando tão natural é querermos saber o que se passa nas nossas costas. É possível que o senhor tivesse querido punir a curiosidade como se se tratasse de um pecado mortal, mas isso também não abona muito a favor da sua inteligência, veja-se o que sucedeu com a árvore do bem e do mal, se eva não tivesse dado o fruto a comer a adão, se não o tivesse comido ela também, ainda estariam no jardim do éden, com o aborrecido que aquilo era. No regresso, por casualidade, detiveram-se por um momento no caminho onde abraão tinha falado com o senhor, e aí caim disse, Tenho um pensamento que não me larga, Que pensamento, perguntou abraão, Penso que havia inocentes em sodoma e nas outras cidades que foram queimadas, Se os houvesse, o senhor teria cumprido a promessa que me fez de lhes poupar a vida, As crianças, disse caim, aquelas crianças estavam inocentes, Meu deus, murmurou abraão e a sua voz foi como um gemido, Sim, será o teu deus, mas não foi o delas.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

#18 of 365 @flickr

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Hoje, após o trabalho, fui à feira do Livro que decorre na Fundação Cupertino de Miranda, à Avenida da Boavista no Porto... A magia dos livros era complementada por algumas relíquias "ancestrais" que por lá se iam encontrando como esta publicação gastronómica de 1963...
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sábado, 16 de janeiro de 2010

Lido... como que ouvido, e sorvido!!!

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Já as pálpebras tinham começado a pesar-lhe quando uma voz juvenil, de rapaz, o fez sobressaltar, O pai, chamou o moço, e logo uma outra voz, de adulto de certa idade, perguntou, Que queres tu, isaac, Levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o sacrifício, e o pai respondeu, O senhor há-de prover, o senhor há-de encontrar a vítima para o sacrifício. E continuaram a subir a encosta. Ora, enquanto sobem e não sobem, convém saber como isto começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar. Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. Chegando assim ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac. Não, não era certo, caim não é nenhum anjo, anjo é este que acabou de pousar com um grande ruído de asas e que começou a declamar como um actor que tivesse ouvido finalmente a sua deixa, Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque eu o impedi. O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor, Tarde, disse caim, Vale mais tarde que nunca, respondeu o anjo com prosápia, como se tivesse acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde, respondeu-lhe caim. O anjo resmungou, Mais um racionalista, e, como ainda não tinha terminado a missão de que havia sido encarregado, despejou o resto do recado, Eis o que mandou dizer o senhor, Já que foste capaz de fazer isto e não poupaste o teu próprio filho, juro pelo meu bom nome que te hei-de abençoar e hei-de dar-te uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu ou como as areias da praia e eles hão-de tomar posse das cidades dos seus inimigos, e mais, através dos teus descendentes se hão-de sentir abençoados todos os povos do mundo, porque tu obedeceste à minha ordem, palavra do senhor. Estas, para quem não o saiba ou finja ignorá-lo, são as contabilidades duplas do senhor, disse caim, onde uma ganhou, a outra não perdeu, fora isso não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque abraão obedeceu a uma ordem estúpida, A isso chamamos nós no céu obediência devida, disse o anjo. Coxeando da asa direita, com um mau sabor de boca pelo fracasso da sua missão, a celestial criatura foi-se embora, abraão e o filho também já lá vão a caminho do lugar onde os esperam os criados, e agora, enquanto caim ajeita os alforges no lombo do jumento, imaginemos um diálogo entre o frustrado verdugo e a vítima salva in extremis.
Perguntou isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-te o braço, que o senhor o cubra de bênçãos, estarias agora a levar um cadáver para casa, A ideia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou isaac, O futuro o dirá, Então o senhor é capaz de tudo, do bom, do mau e do pior, Assim é, Se tu tivesses desobedecido à ordem, que sucederia, perguntou isaac, O costume do senhor é mandar a ruína, ou uma doença, a quem lhe falhou, Então o senhor é rancoroso, Acho que sim, respondeu abraão em voz baixa, como se temesse ser ouvido, ao senhor nada é impossível, Nem um erro ou um crime, perguntou isaac, Os erros e os crimes sobretudo, Pai, não me entendo com esta religião, Hás-de entender-te, meu filho, não terás outro remédio, e agora devo fazer-te um pedido, um humilde pedido, Qual, Que esqueçamos o que se passou, Não sei se serei capaz, meu pai, ainda me vejo deitado em cima da lenha, amarrado, e o teu braço levantado, com a faca a luzir, Não era eu quem estava ali, em meu perfeito juízo nunca o faria, Queres dizer que o senhor enlouquece as pessoas, perguntou isaac, Sim, muitas vezes, quase sempre, respondeu abraão, Fosse como fosse, quem tinha a faca na mão eras tu, O senhor havia organizado tudo, no último momento interviria, viste o anjo que apareceu, Chegou atrasado, O senhor teria encontrado outra maneira de te salvar, provavelmente até sabia que o anjo se ia atrasar e por isso fez aparecer aquele homem, Caim se chama ele, não esqueças o que lhe deves, Caim, repetiu abraão obediente, conheci-o ainda não eras nascido, O homem que salvou o teu filho de ser degolado e queimado no molho de lenha que ele próprio havia trazido às costas, Não o foste, meu filho, Pai, a questão, embora a mim me importe muito, não é tanto ter eu morrido ou não, a questão é sermos governados por um senhor como este, tão cruel como baal, que devora os seus filhos, Onde foi que ouviste esse nome, A gente sonha, pai...
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