domingo, 29 de agosto de 2010

photoshop...

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Hoje apeteceu-me "martelar" uma foto... O motivo justificava-o.
E como se ouve dizer:

Não há mulheres feias... apenas editores de imagem preguiçosos!

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

dispersão



Foge,

não fiques por cá,
não serei aprazível
magoar-te-ei
e as promessas ficarão por cumprir...

Foge, não te quedes por mim,
o mundo, não o sonhei assim...
quero partir sem te levar ou
permanecer sem te agradar.

Foge, não te prendas...
a minha vida é solitária
eu sou solitário
egoísta
vagabundo

foge

não estarei cá muito mais...

José Eduardo

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

no meio do tempo

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-As crianças da cidade não sabem o que isto é! - dizia o velho de boina na cabeça e debruçado sobre uma vara tosca de ocasião em cuja ponta se formava uma espécie de tubérculo deixando antever que havia, em tempos, arrancado pela raiz tal projecto de eucalipto.
-Lá em França também não, mas ao mais é tudo melhor do que aqui! - Retrucava o emigrante cujo corte de cabelo faz lembrar o Marco Paulo de outros tempos e o copioso espaço entre os dois dentes frontais remete-me a lembrança para o sorriso do Nel Monteiro...
-Tudo menos o Vinho - Apressava-se a rematar um magricelas anónimo que ironicamente segurava uma garrafa de cerveja na mão direita enquanto a esquerda agarrava a parte frontal da excessiva camisa florida e a sacudia em tentativa de espantar o calor...
-O vinho? - reclamava o velho. -O vinho até é das poucas coisas que eles têm de bom! - Continuava ele perante a cara de indignação do emigrante com ar de artista pimba...
Alheias ao fútil palavreado, ambas as crianças se fitaram e dedicaram uma à outra a saudável inveja de quem admira a beleza do próximo!!!
No meio de tudo isto, suspirei... Os olhos embaciavam-se-me já!!!
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José Eduardo

quarta-feira, 28 de julho de 2010

é hoje


quarta-feira, 21 de julho de 2010

à mesa do chá


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à mesa do chá, num fim de tarde, não interessa se é de verão... vemos os barcos passar, e não queremos ir com eles... nem com ninguém!!!
só queremos ficar, para sempre, que o tempo pare e o momento dure a eternidade...
à mesa do chá, à tarde, quase noite, não interessa se é inverno... Os barcos passam e nós não...
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terça-feira, 20 de julho de 2010

atrás e à frente

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Tentando dar ideia de tridimensionalidade às letras como que simulando uma posição diferente entre elas ao longo da profundidade de campo...
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domingo, 18 de julho de 2010

cruzou por mim

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
E' estar ao lado da escala social,
E' não ser adaptável às normas da vida,
'As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
E' ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
E' ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco
Aquele pobre que não era pobre que tinha olhos tristes por profissão.
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido
Álvaro de Campos
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sábado, 3 de julho de 2010

sofisma

(...)

-Você não procura o amor, procura deus. Entregue-se de vez.
-Não posso. Ninguém se entrega a nada. Nem a deus! A própria ideia dele é um sofisma. Acredita-se na sua omnipotência, para que ela seja uma salvaguarda da nossa permanência...

(...)

Miguel Torga, in: Conto "O Absoluto" - Pedras lavradas (1951)
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sábado, 26 de junho de 2010

a festa


“…O divino e o profano dão ali as mãos, num amplo entendimento. O céu desce um pouco, a montanha sobe mais, e ninguém sabe ao certo a que reino pertence. Com a cuba do estômago cheia e a imagem da Santa espetada na fita do chapéu, um homem sente-se capaz de tudo: de matar o semelhante e de comungar. Ouve-se um padre-nosso e uma saraivada de asneiras ao mesmo tempo. E apaga-se naturalmente do espírito a estrema que separa o mundo real do irreal. Só quem vem de peito feito para cumprir à risca a devo­ção que o traz, seja ela qual for, consegue encontrar pé num tal mar de contradições.”

in "A festa", Novos contos da montanha - Miguel Torga

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