quinta-feira, 30 de junho de 2016

minha mãe

não tenho forças nem vontade de escrever... mas tive outrora... num tempo em que o motivo era bem mais feliz.
Sei apenas que me faz bem chorar, quando consigo chorar, porque a tristeza me enraivece e o choro me vem maioritariamente nas boas emoções.
choro agora a recordar esse tempo, essas boas emoções, de quando tudo parecia durar para sempre.
choro ao ler o que outrora te escrevi e choro ao ler o que outros dizem de ti, porque me faz bem...

"Mãe… Rosa…
Mãe… minha Mãe
Nossa Mãe,
Sabes…
Hoje pus-me a pensar
E quando dei por mim
Era de novo gaiato
Nada pacato
mas voltei a sentir
como se estivesses ali e retrocedêssemos no tempo
que me limpavas a cara suja na circunstância
com as pontas dos dedos untadas em saliva
e caminhávamos ambos ao som do vento
na nossa tosca elegância
íamos ao campo
a masseiras ou ao Suzano
fosse eu ou qualquer mano
tu eras só vaidade
com os filhos em redor
alimentados a amor
criados na verdade
na tolerância
na adversidade
sem abundância…
a não ser de amor e carinho…
Trabalho e pés ao caminho! "

segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 de Abril, sempre?

nos dias de ontem
era tudo cinzento
e a palavra estava caída
como uma folha sem vida
num dia sem vento

nos dias de ontem
a coragem não vinha
e a boca fechava
e o olhar retornava
em direção à bainha

nos dias de ontem
não morava a esperança
ninguém decidia
e jamais ousaria
iniciar a dança

até que se fez hoje
e um grupo seleto
tocou a reunir
e ousou decidir
debaixo de um teto

e nos dias de hoje
porque alguém assim quis
o povo à rua saiu
levantou a cabeça e sorriu
e chegou-se a mostarda ao nariz

nos dias de hoje
liberto da opressão
o povo dançou
celebrou, gritou
o povo passou a dizer não

até que ainda mais hoje
porque o povo ficou cansado
o dono cá disto tudo
eterno senhor barrigudo
apoderou-se de novo do estado

e agora que é ainda mais hoje
a sociedade, em abdução
já não gosta de estar alerta
senão do vizinho à espreita
o povo... deixou de dizer NÃO!

José Eduardo


quinta-feira, 7 de abril de 2016

a bestificação

(...) Nos dias santificados, dormia-se até quase às dez horas da manhã; depois a gente séria e casada vestia o seu melhor fato e ia à missa, censurando aos novos a sua indiferença em matéria religiosa. Ao regressarem da igreja, comiam tortas de massa, e deitavam-se de novo até à tarde.
A fadiga acumulada durante longos anos tirava o apetite; para poderem comer, era preciso beberem muito, excitarem o estômago preguiçoso com a ardência do álcool.
Pela tarde, passeavam indolentemente pelas ruas; os que possuíam capas de borracha punham-nas, ainda que o tempo estivesse seco; os que tinham um guarda-chuva, com ele saíam, ainda que fizesse sol. Não é dado a toda a gente possuir um impermeável ou um guarda-chuva, mas cada qual ambiciona superiorizar-se ao seu vizinho, seja de que maneira for.
Quando se formavam grupos, conversava-se acerca da fábrica, das máquinas, dizia-se mal dos contra-mestres. As palavras e os pensamentos não se referiam a mais do que a coisas relacionadas ao trabalho. A inteligência desastrada e impotente lançava apenas umas centelhas isoladas, um ténue clarão na monotonia dos dias. Ao voltarem para casa os maridos buscavam questões para discutirem com as mulheres, batendo-lhes muitas vezes, sem pouparem as suas forças. Os novos ficavam na taverna ou organizavam pequenas reuniões em casa dum ou doutro, tocavam harmónio, cantavam canções estúpidas e ignóbeis, dançavam, contavam histórias obscenas e bebiam em excesso. Extenuados pelo trabalho, estes homens embriagavam-se facilmente, e em cada peito desenvolvia-se uma excitação doentia, incompreensível que precisava de encontrar saída. Então, pelo mais fútil pretexto, atiravam-se uns aos outros como animais selvagens. Havia contendas sangrentas. (...)

domingo, 6 de março de 2016

entre-os-rios


(...)
Eliana tinha 23 anos. Era domingo e estava em casa com a mãe e a irmã, Adélia, de 14. O pai via o jogo do Benfica na casa de um primo. O irmão, Hélder, motorista de autocarro, tinha ido trabalhar. De repente, a campainha toca. Era um vizinho a avisar que a ponte tinha caído. Eliana sai em busca do pai, que recebe a notícia com uma certeza: “Foi o Hélder”. Passados 15 anos, o quarto do irmão está intacto: a roupa pendurada nos cabides, a agenda com os serviços marcados. Os pais de Eliana dormem todas as noites no quarto do filho, desde a primeira em que Hélder faltou.
(...)

sábado, 5 de março de 2016

de passagem

...do Chico, o Buarque: Eu te amo

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Conta-me agora como hei-de partir;
Se ao te conhecer, desatei a sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei os meus navios
Diz-me para onde é que ainda posso ir;
Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz-me com que pernas devo seguir;
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu;
Como, se na desordem do armário embutido
O meu casaco enlaça o teu vestido
E o meu sapato ainda pisa no teu;
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair;
Não, acho que te estás a fazer de tonta
Dei-te os meus olhos para tomares conta
Agora conta como hei de partir...


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

chove em Santiago

 abrir a imagemRua da Hortas, Santiago de Compostela, Espanha

sábado, 22 de agosto de 2015

Paço da Boa Nova, Leça da Palmeira


Cinco anos de diferença, duas abordagens diferentes!
2010
2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

eu hei-de


um dia hei-de ser alguém... hei-de ser o homem que desejas e levar-te-ei ao altar. Um dia... hei-de caminhar preeminente em meio do povo e orgulhar-te-ás daquilo que o povo vê... quando me vê!
um dia... hei-de ser alguém!
por enquanto não tiro os olhos do chão!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

sopro


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

late movie session

música jazz
ritmo do lado mais negro de África
que inflama o desejo...
movimentos pélvicos
corpos unidos de forma obscena
ao contrário da elegância e beleza...

Jimmy's hall, 2014

Gostaria de contar com o seu conselho sobre como lidar com os fariseus que usam o púlpito para contar mentiras. Incitam o ódio e encorajam grupos armados a atacar e pôr em perigo a vida de pessoas inocentes.
Quero contar também com o seu conselho sobre o pecado da soberba, e daqueles que assumem ser a fonte do saber e não fazem nada senão fomentar a ignorância e a superstição. E que tentam destruir o que há de melhor nas pessoas, a sua criatividade, o seu sentido crítico e capacidade de diversão com ameaças de profanação. Mas o pior, é tentarem matar o nosso espírito com a monotonia miserável e a colocação de veneno no coração de todos aqueles que não conseguem controlar.
Sacrilégio? Sacrilégio é ter mais ódio do que amor no coração!