terça-feira, 5 de julho de 2011

rude




- Sei dum ninho!!!
Firmino ainda hoje se lembrará de serem estas as palavras com que o Chico ousou quebrar aquele silêncio constrangedor que se prolongara para lá do confortável.
Já era costume que assim fosse mas, que diabo, ainda nenhum se habituara àquilo. Desde que naquele sábado de S. João se encavalitaram ambos no parapeito da janela da casa de banho do "Ti Cosme". Sôfregos se seguravam de cabeças encostadas e braços trémulos como quem lutava pela própria vida, e ali, durante escassos segundos, apreciaram a pálida nudez da Carminda no banho, cândida, trintona, solteira e desinteressada, tímida e inconscientemente se oferecendo à vista de dois marmelos imberbes que, não mais de meia dúzia de minutos passados, se masturbavam ambos e de forma voraz por debaixo do valado do passal e descobriam pela primeira vez as maravilhas e o prazer da consumação. Desde esse dia, cuja noite, é certo, lembravam melhor, era assim que acabavam as tardes de domingo que, na forma simplória de campónios que eram ou, para sermos mais honrosos, pela camaradagem que os unia, teimavam em passar juntos e invariavelmente terminavam ali... Deitados sob a vasta ramada de aromáticos cachos de americano que cobria o Paúl do "ti Antone" se deixavam envolver pela frescura do rio que se habituaram a ter como certo e terminavam ejaculando sobre beldroegas e línguas de ovelha que alguém, no dia seguinte, viria por certo cegar, e soltavam urros ou grunhidos de que ambos se envergonhavam por saberem que a vontade era de gritar o nome de Carminda, essa que, sem o saber, tinha dado a cada um deles, pela primeira e única vez em suas vidas, seu corpo de fêmea à apreciação, essa mesmo, no entanto, moça feia, encalhada, por quem ambos mas cada um por si, envergonhadamente se sentiam apaixonados. E era por um dos dois motivos, a ideia de Carminda e a sessão de masturbação conjunta, senão os dois em simultâneo, que cada um dos franganotes se continuava a sentir deveras constrangido e com um nó na garganta dificílimo de desatar a cada domingo que passava, na hora em que o sol já não vai alto... E foi com essa sensação de "deja-vu", se é que se pode aplicar o termo, que Firmino aproveitou para ajudar à escapada do silêncio encetada pelo Chico perguntando:
- E tem melrinhos, esse ninho? - mas nem se apercebeu da resposta do amigo e companheiro:
- Ah?! Que ninho?!!


José Eduardo


2 comentários:

@ Ruiva disse...

A música vai de encontro com as palavras... Viajei em terrenos desconhecidos agora. Sou tua fã.

Campos disse...

Cada vez que oiço o nome de Firmino, lembro-me do pobre coelho que o meu irmão, lavou orgulhosamente na sua inocência de petiz, com detergente manual para a roupa...
Chamava-o de Firmino...
O Firmino foi crescendo, talvez até mutado pelo detergente... Mas cresceu, e como qualquer jovem foi vivendo as suas aventuras e as aventuras alheias, mesmo por mais recônditas que o fossem...

(Campos)