quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

do lado "não"





Lembra-te que a vida não é sempre a correr,
lento ou devagar,
não é sempre a andar
não é sempre acção...

E então...
Podias parar, olhar, apreciar.
Porque não?!

Olha, fica aí... sim, aí...
vai ensaiando o observar da acção alheia,
deixa-te estar, mantém-te fora desta teia,
e guarda este tempo para ti.

...e agora?
dizes-me o que viste?
o que sentiste?
Como é estar de fora?

Sim, chega a ter a sua piada.
Ainda que monótono e frio
é como ficar à margem do rio,
ali, a olhar... mais nada.

Agora volta, junta-te à corrente.
Deixa-te inundar pelo mar de gente.
Vem, de novo, pertencer à acção...
Jamais esquecerás que estiveste outrora, ali, do lado "não"
lembrar-te-ás que é lá que se sente,
e não cá, a SOLIDÃO.

José Eduardo

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

o fim do "preto no branco"












O programa semanal da Antena 2 que se propunha a funcionar como "magazine" da música clássica e, em abono da verdade, o conseguiu plenamente, chegou agora ao fim... João Almeida apresentou-o assim no passado sábado, dia de Natal, o último preto no branco...
O programa ia para o ar aos sábados de manhã e funcionava como uma animada conversa entre João Almeida, Ana Rocha e Henrique Silveira em volta dos espetáculos de ópera e/ou música de câmara que aconteciam por esse país fora. Confesso que, numa primeira impressão, achava o seguimento um tanto elitista pela concentração  de opiniões nos espetáculos que se desenrolavam em Lisboa mas foi uma ideia que se desvaneceu com o tempo por constatação de que é sobretudo em Lisboa que eles têm efeito, infelizmente.
Seja como for, o programa fazia-me o favor de contextualizar o pensamento banal com o conceito da música erudita, fosse nas particularidades de intérpretes e autores, fosse na explicação do desenrolar da obra em si.
Resta-me esperar que algo do género tenha continuação na rádio pública... a curto prazo!!!

A última emissão do programa AQUI...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

egos tamanhos



Observo a maré e reparo que se encontra agora no ponto alto da sua amplitude. Mais além, um bidão vermelho que bóia ao som das ondas atreve-se a distrair-me o olhar mas o avanço das águas do mar depressa volta a resgatar a minha atenção. Pode parecer-te ridículo e sem o mínimo de sentido mas… o cenário remete-me para um sentimento familiar. Para o tempo em que te empenhavas na auto evidenciação e de como isso resultava num rodear da minha realidade com a tua presença activa. Sim… tu eras hostil, e de tanto o ser já não o fazias com maldade, era essa a tua natureza… jamais conceberias a possibilidade de permanecer anónima na acção do texto das nossas vidas e eu… eu era aquele mísero rochedo que daqui se vê. Apesar de belo, cheio de formas sugestivas e pleno de curiosos minerais que normalmente suscitaria a adoração de outros e representaria o suporte à sua vaidade, era agora envolvido e ofuscado pelas ondas agitadas de uma vida alheia.

Sabes, o que mais me chateia é que, de facto, tudo isto passava ao lado da capacidade de observação das outras vidas, mas eu não sabia disso!

Vejo ali um pescador… espera… um reformado e uma senhora deprimida situam-se mais acima. Noto que todos eles se dão conta da realidade. Todos observam a obsessão invasora do mar e a resultante interferência com a identidade da pequena grande pedra. Todos sabem menos ele, o rochedo, porque se revela incapaz de olhar para fora do turbilhão e por isso, o seu estado é tal que se aproxima vertiginosamente da situação de fastígio à sua condição de lástima.

E eu era este rochedo… Belo, cheio, rico e abrangente e, no entanto, ofuscado por ti e vulnerável à tua capacidade de transformar a mais trivial das situações que vivesses num acontecimento inédito para mim. A culpa, sendo tua, não seguia escrupulosamente a condição de exclusividade. A verdade é que jamais me incitei à coragem de te estender ao comprido sobre a passadeira da realidade, dava trabalho e era indubitável o consequente desenrolar da acção para o plano dramático e apocalíptico uma vez mais servido em doses generosas de potencialização resultantes da tua inevitabilidade egocêntrica.

Esse tempo é passado… Já não sou o mísero rochedo banhado pelas tuas marés. Agora sou mais eu… sou um molhe imponente, pleno de personalidade e alvo de admiração alheia perceptível à minha vaidade. Tu continuas igual mas… as escalas são incomparáveis!


José Eduardo


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

banda sonora d'época


Por estes dias, em que os cachecóis se enroscam sobre os ombros, que o hálito condensa bem perto do rosto e cujas noites são mais amarelas e cintilantes, Oscar Peterson vai saindo da prateleira e transforma-se na banda sonora do conforto cá de casa!!! Lâmpadas a média luz... odor a mel e canela... calor artificial e... muito bom som:

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

um presente comprido.



Nada disso... não me digas que tenho uma vida inteira pelas costas! Isso implicaria a minha proximidade com o fim.
Não, não quero isso!!! tenho tempo, muito tempo ainda... Eu sei que o mais provavel é não ter grande futuro mas, tenho algum, e esse... há-de ser como eu quizer!
Aquilo que tive, o grande passado (como tu lhe chamas), é que faz de mim o que sou... sou alguem que, não tendo um grande futuro, tem um enorme presente...

...e quero prolongá-lo ao máximo!!!


José Eduardo...

sábado, 27 de novembro de 2010

reacções mentais involuntárias... pela manhã!



Descubro-me a tomar o pequeno almoço no lugar de sempre, não o metafísico mas o real, onde elevo o conceito de “brunch” aos píncaros da sua essência. Lá fora vive-se a época glaciar mas aqui, usufruindo do estatuto consolável que é concedido a locais semelhantes, está um calor bom que me obriga a concordar com a maioria (e o que isso me custa)… Ainda assim, peço educadamente ao funcionário que feche aquele postigo que vai permitindo a entrada de um ar fresco que me fustiga as costas e provoca um curioso movimento oscilante na árvore de natal que nos separa, a qual evito olhar para não cair na tentação de iniciar a brincadeira entre olhos e luzes (vícios de fotógrafo sobre conceitos de profundidade de campo de focagem).
Leio um jornal… toca-me o desportivo, já que o outro, que mais me interessa, queda-se pelas mãos de um idoso que, não o lendo, lentamente folheia as páginas, para a frente e para trás, nunca olhando mas mantendo um dedo apontado às palavras. Ritual kafkiano complementado pela simultânea alimentação da diária tertúlia da fatalidade com um companheiro de época. Às vezes é bom que não o possa ler: não raras vezes acabo por virar a última página já possuído por um estado de revolta tal que sempre me impele no sentido da idealização de fatais cenários de protesto… ideias!
Por fim, o rapaz que veste um polo amarelo acaba por me trazer um café. Obviamente não seria hoje que se decidiria a quebrar a irritante rotina de me obrigar a olhá-lo fixa e desconfortavelmente a cada vez que se digna passar aqui pela mesa do canto sem que, mesmo assim, note que o observo e espero o cruzar de olhares que possibilite a percepção de que lhe peço algo. Por vezes penso no assunto e confesso que acho deveras estranha e paradoxal esta atitude com a de se posicionar de pé ao lado da mesa quando chego e estou ainda a compor a posição do sobretudo sobre a cadeira do lado. Muito constrangedor claro está!
Bebo o meu café (entendo-o como que da cobertura de um bolo se tratasse, sobre o pequeno almoço prévio) e penso em sair… já não devo descer à praia hoje. Está frio e a verdade é que a minha diária interacção com o mar não está prevista para esta hora. Creio que hoje, nem mesmo as gaivotas estejam para aí viradas e portanto, vou-me embora…
Olho a fila do pão e noto que está menor agora… é a hora certa. Enquanto me levanto dou a volta às coisas más e banais adversidades que me ocuparam o pensamento e sentido filosófico durante a última hora e concluo que até isso faz parte desta complexa forma de felicidade que cultivo. Acompanha-me agora um ocasional sorriso de confiança e satisfação que concluo, pela reacção de quem comigo se cruza, ser visível à multidão… Retribuem-me boa disposição… vou-me embora.
José Eduardo

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

"aversão inveterada e absoluta"


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Alguma vez te sentiste tentado pelo desconhecido? já pois... ias lá agora tu apresentar uma imagem de vida vazia. logo tu, cujo lema próprio sempre se agarrou bem firme ao conceito de nobilitação da vivência pessoal... Tu que te julgas na imensidão não pelo que és mas por com-quem-te-dás... Logo tu que jamais assumirias qualquer desconhecimento conceptual mesmo que em vasta e eclectíssima tertúlia, daquelas para as quais jamais serias convidado mas afirmas participar... Tu... Tu que te atiras de cabeça contra o muro da vergonha que é ser alvo de sorrisos de chacota motivados pela tua omissão de humildade mas não sentes... Aqueles que se riem de ti não o fazem em modo visível, porque são cordiais, cultos, inteligentes e resilientes, e tu, porque não vês, também não sentes... e és feliz!!!

E eu, porque sou reles, apesar de culto... porque sou invejoso, ainda que bom... porque teimo em viver não só a minha vida mas, por vezes ainda mais, a dos outros... Por tudo isto, enervo-me ao perceber que és feliz. Como sou reles, se pudesse, jamais te concederia tal benefício...

José Eduardo

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

fátuo



Anos a fio em busca da diferença, da presunção de felicidade apoiada na originalidade... tempos perdidos pensando que os ganhava de facto, cultivando amizades e recrutando-as para o meu campo de pensamento. Indefinições que ansiosamente sorvia e amava como se de alimento vital se tratasse. Vejo que fui bom, competente, convincente... vejo que muitos me acompanharam e outros, ainda que não, satisfizeram-me com o seu olhar de legitimação da ideia por mim fundada. Muitos me rodearam sem a mínima preocupação em entender a complexidade deste meu "alter ego"... Outros se deram arrogantemente a entender que me ultrapassavam ainda que, mesmo esses, nunca tenham percebido por onde andei. Talvez tenha criado uma moda, talvez a diferença se tenha tornado uma necessidade para muita gente e foi aí que me apercebi do fastidioso estado que atingi! A diferença tinha deixado de o ser... e passei a odiar-me por já não ser diferente!


José Eduardo

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

laudatório



Chegou a minha parte. Chegou a altura em que me deleito com a ausência de estranhos, em que deixa de haver entre mim e ti toda aquela multidão que se amontoa e nos remete ao anonimato, à insignificância, pelo menos a mim. Sim porque tu... tu continuas a ser o centro das atenções. Para o bem e para o mal, tu és o protagonista, da minha vida e da deles. Na época da exaltação tu recebe-los de braços abertos e eu... eu fico remetido à solidão. Sim, aquela solidão que sinto no meio da multidão apenas porque tu, que me dedicas atenção em todo o resto de tempo, deixaste de o fazer por algum... eu fico assim remetido à solidão e ao ciume, mas agora... agora não... agora somos só nós os dois outra vez, eu e tu e... às vezes deixamos aquele ser alaranjado brincar connosco, porque ele é engraçado. No resto divertimo-nos os dois a contar histórias. Eu com a minha pequenez que se entende pela imobilidade e tu... Ah tu!!! com aquelas histórias que se perdem no tempo e local... o que tu sabes... o que tu sabes do mundo, do tempo, da história... Às vezes penso nisso e fico triste. Sim, fico... só porque me inunda a cabeça com a ideia de que te sou irrelevante, de que, já na praia ao lado, estarás a dar a outro a mesma atenção que me dedicas aqui e agora! Mas esqueço... quero lá chatear-me com isso. Foste tu quem, na tua imensidão, me ensinaste a irrelevar os maus pensamentos e exaltar a alegria de te ter como Amigo e confidente... Gosto de ti... gosto de estar contigo a sós olhando quem passa... Gosto de reparar que também olhas de soslaio para o rabo das meninas que passam em marcha acelerada mesmo antes da hora do "ser alaranjado" que, de vez em quando se junta a nós... Gosto da forma como apenas me olhas e ficas a olhar enquanto esgravato com o lápis de carvão as páginas brancas do meu "notebook" de capa preta descarregando desabafos como este, agora... Gosto de ti e sei que tu, pela forma como sorris e balanças ao ver-me chegar... sei que tu também gostas de mim!!!

José Eduardo

terça-feira, 12 de outubro de 2010

bacio


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Havia a tradição de serrar a velha no tempo do Inverno. Era aí o fim do mundo, nesse tempo. Arranjávamos uma serrita e um bocadito de madeira e depois íamos, à noute, à porta das pessoas mais velhas da terra. Depois de aquelas pessoas fazerem tantos anos, nós íamos serrar a velha. Às vezes era só uma mulher ou um homem. Outras vezes, eram dois e três. Era conforme. Se fossem três, íamos a todos os três serrar a velha. Era o costume. Dizíamos assim:

- "Ó velha! Ó velha! Vou-te serrar aqui, velha! Vou-te serrar!"

E a gente com a serrita: ruca, ruca, ruca... Íamos de uma porta para a outra serrar a velha. Dizia que lhe ia chegar ao nó:

- "Ó velha! Ainda te vai chegar ao nó!"

E as gentes com as serritas, zumba, zumba, zumba na ripa.

- "Oh! Vai-te embora! Tu também hás-de ser velho! Vai-te embora!"

E a gente: sarruque, sarruque, sarruque, sarruque. Naquilo com umas serritas.

Era mais a garotada que fazia isto. Homens adultos já não iam. Claro, já parecia mal. Agora, os garotitos não saíam das portas a serrar a velha. Mas elas não queriam! Se a gente fosse para o lado de baixo de uma janela serrar a velha, elas iam lá por cima buscar o bacio debaixo da cama e pumba, para cima da gente! Eram velhacas, más. A gente vinha todo molhado a cheirar a mijo.
Tinha que vir para casa tomar banho. Mas não podíamos dizer nada, porque nós é que fazíamos o mal.


in: Aldeias de memória, "Pardieiros" - História de vida de José Garcia, 2008

ba.ci.omasculino

1.vaso de noite;
2.bispote; penico.

Rayuela, cap 7

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Por mim...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Rayuela, jazzuela...



Acabo de ler o capítulo 17 de Rayuela, de Julio Cortázar (O jogo do mundo, na edição portuguesa) e este final de capítulo constitui estímulo capaz de me remeter à escrita de umas quantas palavras (veja-se o sacrifício)...

A verdade é que, se mergulhei cegamente na aventura de ler este clássico (quase desconhecido em Portugal) da literatura mundial e incontestável na cena Sul Americana... Se a particularidade de dar nome a um dos temas do último álbum de Gotan Project foi o que bastou para me atirar de encontro a um cartapácio de quase setecentas páginas, pois então começo a ter mais confiança nos meus presunçosos instintos musico-literários (isto até ao próximo embate frontal na decepção)...

Pois bem, não abordando muito a já de si óbvia capacidade de absorção do leitor cujo arquétipo da acção decorrida na Paris boémia-cultural nos proporciona, a verdade é que a escrita de Cortázar, para além de literariamente rica, se revela aqui extremamente fundamentada e estonteantemente envolvida pelos cenários da cultura mundial. Começamos pela literatura e atravessamos a pintura ou outras variadas e vastas formas de arte que salpicam o livro de lés a lés mas, de início a fim, o jazz é rei.
Ora, que mais me poderia calhar em sorte? A cada virar de página vão saltando para fora da encadernação o som e perfume dos blues dos 20's e dos 30's... O piano de Earl Hines e a voz de Bessie Smith partilham e alternam protagonismo com a "corneta" de Benny Goodman e a competência de Jelly Roll Morton. Todo a obra (pelo menos até ao maravilhoso cap. 17) é um livro aberto na romântica semântica da expressão e quase que uma enciclopédia à moda antiga. Pelo menos para mim, tem sido uma maravilhosa fonte de documentação para situar e interpretar muito daquilo que hoje conheço no "país" do jazz...


Abaixo, o final do capítulo 17 de Rayuela (o jogo do mundo) sem a parte que apenas diz respeito ao romance... esta é... a exaltação do jazz!!!


(...)

una trompeta anónima y después el piano, todo entre un humo de fonógrafo viejo y pésima grabación, de orquesta barata y como anterior al jazz, al fin y al cabo de esos viejos discos, de los show boats y de las noches de Storyville había nacido la única música universal del siglo, algo que acercaba a los hombres más y mejor que el esperanto, la Unesco o las aerolíneas, una música bastante primitiva para alcanzar universalidad y bastante buena para hacer su propia historia, con cismas, renuncias y herejías, su charleston, su black bottom, su shimmy, su foxtrot, su stomp, sus blues, para admitir las clasificaciones y las etiquetas, el estilo esto y aquello, el swing, el bebop, el cool, ir y volver del romanticismo y el clasicismo, hot y jazz cerebral, una música-hombre, una música con historia a diferencia de la estúpida música animal de baile, la polka, el vals, la zamba, una música que permitía reconocerse y estimarse en Copenhague como en Mendoza o en Ciudad del Cabo, que acercaba a los adolescentes con sus discos bajo el brazo, que les daba nombres y melodías como cifras para reconocerse y adentrarse y sentirse menos solos rodeados de jefes de oficina, familias y amores infinitamente amargos, una música que permitía todas las imaginaciones y los gustos, la colección de afónicos 78 con Freddie Keppard o Bunk Johnson, la exclusividad reaccionaria del Dixieland, la especialización académica en Bix Beiderbecke o el salto a la gran aventura de Thelonius Monk, Horace Silver o Thad Jones, la cursilería de Erroll Garner o Art Tatum, los arrepentimientos o las abjuraciones, la predilección por los pequeños conjuntos, las misteriosas grabaciones con seudónimos y denominaciones impuestas por marcas de discos o caprichos del momento y toda esa francmasonería de sábado por la noche en la pieza del estudiante o en el sótano de la peña, con muchachas que prefieren bailar mientas escuchan Star Dust o When your man is going to put you down , y huelen despacio y dulcemente a perfume y a piel y a calor, se dejan besar cuando es tarde y alguien ha puesto The blues with a feeling y casi no se baila, solamente se está de pie, balanceándose, y todo es turbio y sucio y canalla y cada hombre quisiera arrancar esos corpiños tibios mientras las manos acarician una espalda y las muchachas tienen la boca entreabierta y se van dando al miedo delicioso y a la noche, entonces sube una trompeta poseyéndolas por todos los hombres, tomándolas con una sola frase caliente que las deja caer como una planta cortada entre los brazos de los compañeros, y hay una inmóvil carrera, un salto al aire de la noche, sobre la ciudad, hasta que un piano minucioso las devuelve a misma, exhaustas y reconciliadas y todavía vírgenes hasta el sábado siguiente, todo eso en una música que espanta a los cogotes de platea, a los que creen que nada es de verdad si no hay programas impresos y acomodadores, y así va el mundo y el jazz es como un pájaro que migra o emigra o inmigra o transmigra, saltabarreras, burlaaduanas, algo que corre y se difunde y esta noche en Viena está cantando Ella Fitzgerald mientras en París Kenny Clarke inaugura una cave y en Perpignan brincan los dedos de Oscar Peterson, y Satchmo por todas partes con el don de ubicuidad que le ha prestado el Señor, en Birmingham, en Varsovia, en Milán, en Buenos Aires, en Ginebra, en el mundo entero, es inevitable, es la lluvia y el pan y la sal, algo absolutamente indiferente a los ritos nacionales, a las tradiciones inviolables, al idioma y al folklore: una nube sin fronteras, un espía del aire y del agua, una forma arquetípica, algo de antes, de abajo, que reconcilia mexicanos con noruegos y rusos y españoles, los reincorpora al oscuro fuego central olvidado, torpe y mal y precariamente los devuelve a un origen traicionado, les señala que quizás había otros caminos y que el que tomaron no era el único y no era el mejor, o que quizá había otros caminos y que el que tomaron era el mejor, pero que quizá había otros caminos dulces de caminar y que no los tomaron, o los tomaron a medias, y que un hombre es siempre más que un hombre y siempre menos que un hombre, más que un hombres porque encierra eso que el jazz alude y soslaya y hasta anticipa, y menos que un hombre porque de esa libertad ha hecho un juego estético o moral, un tablero de ajedrez donde se reserva ser el alfil o el caballo, una definición de libertad que se enseña en las escuelas, precisamente en las escuelas donde jamás se ha enseñado y jamás se enseñará a los niños el primer compás de un ragtime y la primera frase de un blues, etcétera, etcétera.

I could sit right here and think a thousand miles away,
I could sit right here and think a thousand miles away,
Since I had the blues this bad, I can’t remember the day

(...)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

negação



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Continuo nesta teimosia... continuo a exercer este gosto dogmático pelo desconhecido. Corro sem destino e com objectivo único de que não cesse a sensação de frescura que este vento me provoca na face. Sigo em frente... sigo como que incitado por esta aversão ao que conheço e banalizei. Busco sentimentos fortes de alegria ou angústia e assim sinto-me viver porque me repulsa o conforto e o "nada" de conviver com o que me é já familiar. Vou fugindo sem controlo à inevitabilidade da conversa de circunstância, às palmadas nas costas que jamais significaram estima ao ser repugnante que faço questão em personificar. Vou em frente logo que, à frente, se me deparam lúgubres cenários e o sofrimento se antecipa no pensamento... e sempre com um único propósito...
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a saudade do prazer banal, do lugar comum...
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José Eduardo
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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

só o tempo

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Lembro-me de um dia, ainda em pequeno, ter decretado na minha existência (que é como quem diz pensamento) que o tempo não existe. Naquela altura assumia já comigo a promessa de não envelhecer. Os mais velhos assustavam-me munidos dos seus pensamentos fatalistas e suas premonições de invariabilidade dos destinos. O vaticínio do -"tu para lá vais"- ou o extremamente doloroso e assassino de presunções excêntricas -"eu também já fui assim"- jamais me convenceram, pelo contrário, foram como que latas de querosene atiradas em direcção à chama da lamparina que representava a vontade e encanto pela originalidade ou extravagância (se houver diferenças) na tentativa de a apagar.
Passados estes anos, não fui a lado nenhum... Tenho sido extremamente regular nos actos mas... no pensamento... aahh, no pensamento!!! Jamais!!!
José Eduardo
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domingo, 29 de agosto de 2010

photoshop...

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Hoje apeteceu-me "martelar" uma foto... O motivo justificava-o.
E como se ouve dizer:

Não há mulheres feias... apenas editores de imagem preguiçosos!

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

dispersão



Foge,

não fiques por cá,
não serei aprazível
magoar-te-ei
e as promessas ficarão por cumprir...

Foge, não te quedes por mim,
o mundo, não o sonhei assim...
quero partir sem te levar ou
permanecer sem te agradar.

Foge, não te prendas...
a minha vida é solitária
eu sou solitário
egoísta
vagabundo

foge

não estarei cá muito mais...

José Eduardo

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

no meio do tempo

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-As crianças da cidade não sabem o que isto é! - dizia o velho de boina na cabeça e debruçado sobre uma vara tosca de ocasião em cuja ponta se formava uma espécie de tubérculo deixando antever que havia, em tempos, arrancado pela raiz tal projecto de eucalipto.
-Lá em França também não, mas ao mais é tudo melhor do que aqui! - Retrucava o emigrante cujo corte de cabelo faz lembrar o Marco Paulo de outros tempos e o copioso espaço entre os dois dentes frontais remete-me a lembrança para o sorriso do Nel Monteiro...
-Tudo menos o Vinho - Apressava-se a rematar um magricelas anónimo que ironicamente segurava uma garrafa de cerveja na mão direita enquanto a esquerda agarrava a parte frontal da excessiva camisa florida e a sacudia em tentativa de espantar o calor...
-O vinho? - reclamava o velho. -O vinho até é das poucas coisas que eles têm de bom! - Continuava ele perante a cara de indignação do emigrante com ar de artista pimba...
Alheias ao fútil palavreado, ambas as crianças se fitaram e dedicaram uma à outra a saudável inveja de quem admira a beleza do próximo!!!
No meio de tudo isto, suspirei... Os olhos embaciavam-se-me já!!!
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José Eduardo

quarta-feira, 28 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

à mesa do chá


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à mesa do chá, num fim de tarde, não interessa se é de verão... vemos os barcos passar, e não queremos ir com eles... nem com ninguém!!!
só queremos ficar, para sempre, que o tempo pare e o momento dure a eternidade...
à mesa do chá, à tarde, quase noite, não interessa se é inverno... Os barcos passam e nós não...
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terça-feira, 20 de julho de 2010

atrás e à frente

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Tentando dar ideia de tridimensionalidade às letras como que simulando uma posição diferente entre elas ao longo da profundidade de campo...
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domingo, 18 de julho de 2010

cruzou por mim

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
E' estar ao lado da escala social,
E' não ser adaptável às normas da vida,
'As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
E' ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
E' ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco
Aquele pobre que não era pobre que tinha olhos tristes por profissão.
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido
Álvaro de Campos
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sábado, 3 de julho de 2010

sofisma

(...)

-Você não procura o amor, procura deus. Entregue-se de vez.
-Não posso. Ninguém se entrega a nada. Nem a deus! A própria ideia dele é um sofisma. Acredita-se na sua omnipotência, para que ela seja uma salvaguarda da nossa permanência...

(...)

Miguel Torga, in: Conto "O Absoluto" - Pedras lavradas (1951)
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sábado, 26 de junho de 2010

a festa


“…O divino e o profano dão ali as mãos, num amplo entendimento. O céu desce um pouco, a montanha sobe mais, e ninguém sabe ao certo a que reino pertence. Com a cuba do estômago cheia e a imagem da Santa espetada na fita do chapéu, um homem sente-se capaz de tudo: de matar o semelhante e de comungar. Ouve-se um padre-nosso e uma saraivada de asneiras ao mesmo tempo. E apaga-se naturalmente do espírito a estrema que separa o mundo real do irreal. Só quem vem de peito feito para cumprir à risca a devo­ção que o traz, seja ela qual for, consegue encontrar pé num tal mar de contradições.”

in "A festa", Novos contos da montanha - Miguel Torga

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quinta-feira, 24 de junho de 2010

o artilheiro

(...)

- Carlos Pinto, um seu criado! O Artilheiro... - proclamou, alto e bom som, no silêncio da sala, o filho do Alma em Pé.

E o Tribunal não pôde deixar de ter um sorriso de simpatia pelo moço que, da pequenez a que fora condenado, atirava à cara carrancuda da justiça aquela grande e poderosa palavra.

- Artilheiro, é boa! - fungava o delegado, a imaginar o que seria uma praça com pouco mais de um metro de altura a manobrar os canhões de Amarante.

Se perguntassem em Malhão o nome do autor de todas as alcunhas que no povo definiam quem tinha definição, ninguém sabia. A crisma nascia anónima e certeira, englobando num, só palavra um mundo de realidades contraditórias, admiráveis e ridículas, bonitas e feias, dignas de indulgência e merecedoras de escárnio. A história humana da terra estava inteira nos apelidos dos seus filhos. João, António, Francisco, Carlos da Lousa ou Joaquim da Fonte individualizavam gente, mas não testemunhavam vida e acção. Já Fogo-Morto, Nalguinhas, Chega-me-Isso e Pé-Tolo exprimiam defeitos e virtudes concretas que todos conheciam. Eram instantâneos onde a aldeia podia ver os seus títeres ao natural. Às vezes o apodo não tinha aparentemente qualquer significação. Lafunfa, por exemplo, não queria dizer nada. E, contudo, nenhuma palavra podia retratar tão completamente a pessoa atarracada, frascária e casamenteira da Gregória.

O portador do cartaz zombeteiro, como uma truta presa no anzol, a princípio saltava e barafustava. A tudo Malhão assistira, nesse capítulo. Zangas, injúrias e tiros, até! O curioso é que daí a pouco tempo a própria vítima se servia desse cartão de identidade, mais explícito e universal.

- Saiba V. S.a que a minha graça é Gabriel dos Anjos... - explicava o interessado, a tentar receber no Banco um cheque que lhe manda o filho do Brasil.

- Acredito. Mas traga., traga um fiador... Ou então arranje uma casa comercial que o abone...

- Talvez V. S.a tenha ouvido falar no Luminárias...

- Ai vossemecê é que é o célebre Luminárias! Mas Isso é outro cantar!... Assine aqui...

Embora a coisa fosse um bocadito amarga e dolorosa, o rabo-leva era tão simples e prático que não havia remédio senão um homem resignar-se. De resto, nem todos se mostravam igualmente sensíveis a estas radiografias cruéis. A maioria aceitava com estoicismo e dignidade o diagnóstico colectivo. E à cabeça do rol desses heróis estava o Artilheiro.

Lapantim, muito teso dentro da roupa, desde pequeno que qualquer coisa na sua pessoa denunciava uma impossibilidade eterna de chegar ao estalão. E um dia a alcunha surgiu, justa por antinomia. O Carlos, porém, não se deixou vencer pela chacota. Foi crescendo até onde pôde, aproveitando os milímetros, e à frente da figura mirrada, confiante e risonho, erguia sempre, como um cartaz identificador, o grande nome que Malhão lhe dera.

Nem mesmo na carta que escreveu à Guiomar, quando o tempo do amor chegou, se esqueceu de acrescentar o epíteto de guerra.

Como não recebeu resposta, meteu no caso a Lafunfa, que tentou amaciar a rapariga.

- Valha-te Deus, mulher! É o céu que to manda!

- O Artilheiro?! Eu queria lá um meio-alqueire daqueles! Quando casar, há-de ser com um homem que me aqueça os pés... Não me fale em semelhante enfezado!

- Olha que é como os outros... - insinuava, maliciosamente, a velha alcoviteira. - Experimenta...

- Experimentar?! - exclamou a desamorável, entre ofendida e pasmada.

- Experimentar, é como quem diz... Não quero que te metas com ele na cama... Atendê-lo, a ver...

Batida e pelada como uma fraga do ribeiro, a Lafunfa era a casamenteira da terra. Por um miçoilo de qualquer coisa, não havia cachopa que não levasse à bebida, nem estola que não atasse a mãos namoradas desavindas. Beata, sempre a pregar moralidade, todo o amor de Malhão passava por sua casa.

- Entra... - sussurrava em tom cúmplice a quem, levemente e a altas horas, lhe batia à porta.

- Sou eu, o Abel... - Pois sim, filho. Senta-te ao lume, que eu vou já...

Aparecia embrulhada no chaile e, a cada lamento do apaixonado, só dizia:

- A grande tola!... Coitada, ainda ninguém lhe mostrou a verdade...

Depois, o Romeu saía, a noite apertava as malhas, e o dia só raiava ao fim de muitas horas de suspiros. Mas logo nessa mesma tarde os olhos da ovelha arisca brilhavam com outra brandura e consentimento.

- Farta de o ver estou eu! - defendia-se a Guiomar com bravura. - Olhe que ele vê-se depressa...

- Enganas-te, filha. Enganas-te... Os homens às vezes parecem uma coisa e são outra. Aquele tenho a certeza que é dos tais... Não fales antes de lhe tomares o gosto...

- Quem a ouvir, há-de dizer que já o provou!... - Na minha idade!... Quem me dera! E com mais duas conversas assim o Artilheiro tinha namorada. Mas como sabia o que a velha lutara para conseguir o sim, e como desejava tirar todas as dúvidas à cachopa, não esteve com demoras. Na primeira altura que pôde, em vez de lhe aquecer os pés, aqueceu-lhe o corpo inteiro.

A rapariga viera ao penso para o gado, à tardinha, a uma hora em que as próprias silvas adormecem brandas nas sebes. E o rapaz, que a viu passar, foi-lhe no encalço. Largou a enxada e o lameiro, e resolveu tratar doutra sementeira.

A primeira facha desatou-se. E, quando a moça se baixou à procura do vincilho, duas mãos ávidas e seguras agarraram-na pelos seios de granito.

- Jesus!

O grito alarmado não queria significar recusa.

Surpresa, apenas. Enleada, morna, submissa, a carne aceitava o abraço e o resto que ele prometia.

- Pode vir gente...

- Quem há-de vir? A porta deslizou nos gonzos e, à branda luz que adoçava o medo, os dois deram-se com toda a força da juventude.

Rijo, só músculos e tendões, viril como um gato ágil, o Artilheiro parecia um raio a varar aquela virgindade. E a Guiomar, se não sentia nos braços um homem do tamanho do Marão, abria-se: inteira à eficiência de uma força sem dispersão, rápida, concêntrica e desfibrada.

- Meu amor... Começava uma verdadeira e pura fonte apenas dentro dela e a inundá-la da única paz que é na vida o remédio de todas as feridas.

- Meu amor... Casta., das funduras da alma, a paixão irrompia pela crosta dos sentidos e aparecia à tona em palavras que as outras horas não deixavam dizer.

O rapaz ouvia confusamente a confissão rendida. E uma alegria de triunfo total irradiava-lhe das fontes a latejar. .

Foi no intervalo de dois beijos que um alarme inesperado os acordou.

- Ó Júlia, não viste por acaso a minha Guiomar? Veio ao feno e nunca mais apareceu...

- Eu não senhor! - Vou espreitar aqui à loja. Está a chave na porta...

Invejoso de tanta felicidade, o mundo vinha desprendê-los dum abraço de comunhão perfeita e lançar o Carlos fora da intimidade que o tornava desmedido.

- Guiomar! Onde raio se meteu o demónio da cachopa?

O Artilheiro estava já escondido debaixo de uma meda de canas, e a rapariga limpava e desenrugava a saia como podia.

- Guiomar! - e o velho e a luz entraram de repelão na loja.

- Meu pai...

Bem que o pé remexia o chão, tentava disfarçar o ninho de felicidade. Patente, natural e denunciadora, a cama daquela hora nunca mais se desfigurava.

- Que estavas tu aqui a fazer? Afogueada ainda, a rapariga não respondeu. Que poderia ela responder? A evidência do que se passara metia-se pelos olhos dentro. Não tinha medo, de resto. Tentara apagar as marcas da sua entrega, mais por um sentimento superficial de pudor do que por íntima vergonha. Se alguma coisa lhe pesava ali era não ter a seu lado, altivo, de cara descoberta, o homem que a possuíra.

Sem querer encarar a verdade, o velho quase lhe pedia que o enganasse.

- Anda, responde! Se fosse uma ou duas horas depois, quando dentro dela não ressoasse já a voz alvoroçada do instinto acordado, talvez pudesse mentir-lhe. Em pleno deslumbramento, não.

- Que quer que lhe responda? Não vê?... Ia caindo o palheiro.

- Ó sua recai Sua galdrona! Seu grande coiro! E quem foi o maroto, o safardana? Onde está, que o mato. Mas

A pequenez do Artilheiro começava a ser um pesadelo no espírito da rapariga. Se ao menos o rapaz pudesse ter saído da loja a tempo, pronto, não ouvia o pai e depois o tempo diria. Agora assim alapardado enquanto ele disparatava, era de desesperar.

E foi então que a Guiomar viu novamente crescer diante dela o homem que a Lafunfa lhe prometera. Antes que as coisas passassem a mais, intrépido, digno, o Artilheiro saiu de dentro da moreia e apresentou-se.

- O maroto sou eu, ti Adriano.

- Ó meu excomungado! Meu ladrão, que te bebo o sangue!

- Não se exalte! Isto tinha de se fazer... Amanhã trata-se dos papéis.

- O que tu merecias, bem sei eu, patife! - espumava o velho, a meter-lhe os punhos à cara e a olhar o feno onde os dois tinham rolado.

- Acalme-se, homem de Deus! Não faça escândalo! Lembre-se que vou ser seu genro... E um genro às direitas, verá. Como vossemecê nunca avezou!

Amainado a custo o temporal, silenciosos, deixaram os três o palheiro. No largo, o pai e a filha foram sós para casa.

- Que te aconteceu? - perguntou a Gaudência, intrigada, ao ver entrar o homem carrancudo.

- Olha, foi esta bácora! Fui encontrá-la fechada na loja com o badana do Artilheiro!...

-- Artilheiro' não! Carlos, se faz favor. Pode-lhe chamar pelo nome... - reclamou a rapariga, já senhora de si e cheia da seiva do namorado.

- Com o Artilheiro! Nem me digas! - Pois, então! De tantos rapazes que havia na terra, só lhe serviu o senhor Artilheiro! E com medo que ele lhe fugisse, deu-lhe a esmola antes do padre-nosso... - Já disse que o tratem pelo nome, com mil diabos! - protestava a Guiomar, indignada, e cada vez mais firme no seu amor.

- Cale-se, sua desavergonhada! Só por escárnio! Se algum dia eu calculei que me caía em casa um fedunças daqueles!

À dor sincera do pai misturava-se a raiva do homem. Sem o Adriano querer, o instinto bruxuleante tinha guinadas de rancor a lembrar-se da facha macia e perfumada de feno, pisada e ainda quente no chão.

O rifão popular é que não podia faltar: casa com a filha do rei, que as pazes eu as farei. A vergonha e os melindres foram passando., a vida continuou, e, quando apareceu o primeiro fruto do matrimónio, a família inteira foi baptizá-lo a Paços.

- Ele sai ao pai? - perguntou, ao vê-los, passar, o Mareante, uma das vítimas amorosas de Guiomar, que não engolia o triunfo do Artilheiro.

- Sai, queres ver? - respondeu a mãe babosa, lorpa, a descobrir o crianço.

- Pois sai, sai, coitadinho!... Ainda há-de vir a ter menos um palmo...

O Mareante era um rapagão como uma torre e o Artilheiro, ao pé dele, parecia um frango. Mas ainda todos, o sogro principalmente, estavam a mastigar a ofensa, já o atrevido tinha uma paulada nas fontes e gemia no chão.

Correu gente, acomoda daqui, ampara dali, e vá lá ninguém estancar a bica de sangue que esguichava do toutiço do desgraçado!

- Um meio tostão daqueles, hein?! - comentava o Sequinho. - Pequenino, pequenino, e por um triz que não lhe punha os miolos ao sol!

Na vila, que só com uma operação de urgência se lhe podia valer. Nada mais que trepanar-lhe a cabeçal

Lá o salvaram, mas no tribunal, depois, é que foram elas! O próprio advogado torcia o nariz. As coisas estavam muito fuscas.

- Bem escusávamos disto, se tu fosses outra! - resmungava o Adriano, com os olhos no genro, muito teso, prestes a sentar-se no banco dos réus. - Olhe lá não lhe caia a pedra de armas! - refilou a Guiomar, cada vez mais orgulhosa do marido.

- Silêncio! Como se chama? E foi então que o rapaz, corajoso e leal, disse escaroladamente ao juiz o seu nome civil e o apelido que Malhão lhe dera. E como o crime não era de morte nem fora premeditado, e há pessoas que entram no coração da gente sem se saber por quê, o magistrado ouviu as testemunhas e a defesa, pensou, pensou, mediu as razões do ofendido, e acabou por aconselhar ironicamente ao Mareante que para outra vez tivesse mais juízo, e não se metesse com homens de brios, de mais a mais Artilheiros!

(...)

Miguel Torga, in: Novos Contos da Montanha
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